O blog

Este blog foi criado em 2008 para a postagem das minhas colunas que eram publicadas no Infomoney e no extinto A Cidade.
Atualmente publico no jornal O Pinhalense e no site O Financista.
Aproveitem!


terça-feira, 29 de setembro de 2015

50 tons de crise

http://www.financista.com.br/noticias/50-tons-de-crise

A onda de notícias ruins da economia parece não parar de crescer e já tomou a forma de um maremoto. O governo, que estava tomando um solzinho na praia, sensibilizou-se com a tragédia anunciada pelo tsunami que se aproximava e encomendou um plano de reconstrução e de socorro às vítimas. A equipe do governo responsável pelo plano achou prudente se salvar primeiro antes de ajudarem as demais vítimas. Para tanto, resolveram se refugiar em um castelo de areia...
Em meio a onda gigante de notícias indigestas que tende a varrer a praia e o governo brasileiro junto, vemos que o dólar tem avançado porque cada vez mais há sinais (e evidências) que o governo não conseguirá cumprir nada que venha a prometer no que se refere a sua meta fiscal deste e dos próximos anos. O excesso de sinceridade do governo ao tratar do tema escancara a escassez de planos e de coragem para tratar das origens dos problemas fiscais do país. E isto tem provado ser politicamente fatal.
O governo prometeu economizar, no início do ano, cerca de 65 bilhões de reais em 2015 (1,1% do PIB), sendo que nos últimos 12 meses até julho acumula um déficit de quase 0,9%, um recorde. O resultado de julho foi de R$ 10 bilhões negativo após um junho com outro déficit de R$ 9 bilhões. Frente a constatação da impossibilidade de se cumprir a meta inicial, optou-se pela comodidade de se ajustar a meta. Apenas a meta. E agora promete-se um superávit de 0,15%. Dados os déficits anunciados recentemente vão precisar remar muito mais em meio ao tsunami para se atingir a meta cada vez mais distante. O que vai ser bem difícil dada a dificuldade de se aumentar a arrecadação num ambiente econômico fraco e politicamente hostil.
A depender dos impostos arrecadados junto aos empregados formalizados, pode-se ir desistindo de qualquer meta superavitária. O CAGED que levanta o número de admissões e demissões mensais, registrou um saldo negativo de geração de empregos de mais de 150 mil trabalhadores, no último julho. O pior julho desde a criação da série, em 1992. Em doze meses, o saldo negativo é de mais de 750 mil vagas. Caso fossem remunerados pelo salário mínimo, estes 750 mil postos de trabalho perdidos gerariam mais de R$ 1,5 bilhões por ano à Previdência. Agora, ao contrário, geram pressão fiscal por meio do seguro desemprego.
Já o aumento da taxa de desemprego divulgado pelo IBGE, 8,3% e subindo, retrocedeu o indicador para o nível de quase 5 anos atrás, segundo estimativas feitas pelo departamento econômico do Bradesco por meio de retropolação. Isto sem considerar que este indicador é de certa forma “mascarado” por sua metodologia, que considera desempregado apenas quem efetivamente está a procura de emprego – se você não tiver emprego e não sai de casa a procura de um (ou mora na rua), você não é considerado desempregado pelo IBGE. Por essa mesma razão que há algum tempo a taxa de desemprego tem sido achatada pelo retardamento da entrada no mercado do trabalho das pessoas mais jovens, que estavam prolongando seus estudos. Onde estes jovens trabalharão quando terminarem os estudos? Isto vai depender do nível de confiança dos empresários para expandir seus negócios e dos consumidores para movimentar a economia.
E estes foram outros indicadores divulgados recentemente. E também nada animadores. A confiança do consumidor simplesmente atingiu seu patamar mínimo histórico, desde a criação da série em 2005. Não por acaso o mesmo ocorreu no nível de confiança do comércio, com 4 quedas consecutivas atingiu seu mínimo desde sua criação em 2010 e 22% menor que um ano atrás. Já a confiança da indústria também está em queda, 17% menor que há um ano, no menor patamar dos últimos 10 anos.
Todo esse cenário desalentador na economia (e olha que nem falamos da inflação!) tem minado o nível de satisfação e paciência da população com o governo central. E não é por menos, afinal a maioria dos brasileiros não sentimos prazer em apanhar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Retorno ao blog

Retornando ao blog após 4 anos de ausência.

O sapo, o escorpião e o atual governo

http://www.financista.com.br/noticias/o-sapo-o-escorpiao-e-o-atual-governo

Diz a fábula que havia na beira da água um sapo que foiabordado por um escorpião que pedia ajuda para atravessar o rio e se propôs ir nas costas do sapo. O sapo desconfiado admitiu que tinha receio de o escorpião picá-lo no meio do caminho. O escorpião argumentou que isso não fazia o menor sentido, pois se o picasse os dois morreriam juntos. Convencido pelo raciocínio lógico do escorpião, o sapo aceitou carregá-lo através do rio. Meio caminho percorrido rio adentro, o escorpião pica o sapo. Antes do mergulho fatal, eles conseguem trocar suas últimas palavras: “Por que você fez isso? questionou o sapo desolado. Faz parte da minha natureza.” resumiu o escorpião.
Toda fábula tem uma moral, mas esta e seus personagens em particular vão além e servem como uma metáfora do atual governo brasileiro e dos dois principais partidos de sua coalizão, o PT e o PMDB. Pensemos o rio como um caminho que pode ser fatal, mas que precisa ser percorrido. O rio é o ajuste fiscal e monetário em meio a maior recessão econômica de décadas, num ambiente de inflação alta, índice de aprovação do governo quase inexistente e comgovernantes sendo investigados ou indiciados por Polícia Federal, Tribunal de Contas da União e Tribunal Superior Eleitoral.
Todos sabem que para se chegar a outra margem do rio – o próximo mandato presidencial – com chances reais de se manterem no poder, devem primeiro atravessar estas correntezas que podem afogá-los, o que interromperia assimsuas aspirações de poder e comprometeria definitivamente suas biografias e relevância política.
Um depende do outro para atravessarem o rio e saírem ilesos. O sapo depende do escorpião que pode a qualquer momento o picar e o escorpião depende do sapo que pode mergulhar e afogá-lo. O PT depende do PMDB que têm domínio do Legislativo e pode viabilizar no Congresso um impedimento da presidente Dilma. E o PMDB depende do PT que tem a caneta que assina os cheques que são a razão de seu apoio ao governo em primeiro lugar.
Ademais, um impedimento de Dilma hoje deixaria o PMDB no poder, mas bem no meio das correntezas mais fortes da travessia. Seria de seu interesse (ou natureza)? E a depender do desfecho do julgamento do Tribunal Superior Eleitoral, o próprio PMDB pode ser alijado do poder em conjunto com o PT. Sem contar que a operação Lava-Jato pode ainda comprometer as aspirações políticas dos peemedebistas que presidem o Senado e o Congresso. 
Ao mesmo tempo que um apoio incondicional do PMDB a um governo e a uma governanta petista de quinta categoria,segundo 9 de cada 10 brasileiros, pode também não ser a melhor opção para quem almeja um dia chegar ao poder pelo voto popular.
Na fábula do governo brasileiro, tanto o PT quanto o PMDB têm ciência de sua interdependência e estão no início da travessia do rio. Curiosamente ambos parecem conhecer o desfecho da fábula que mimetizam. O que mais os intriga, porém, é que eles não fazem ideia de quem é o sapo e quem é o escorpião da história.

O que querem as manifestações

Coluna de O Pinhalense, 22 de agosto de 2015

É curioso ouvir os arautos da ética criticarem as manifestações do último domingo por estas terem supostamente se esquecido de manifestarem contra a violência policial, a chacina da semana anterior ou tão pouco terem gritado palavras de ordem contra a pobreza e em favor da paz mundial.
Para quem não percebeu, as manifestações tinham foco. Algo que estava difuso e não tão claro nas manifestações anteriores, mas no último dia 16 se manifestou mais evidente. Quem foi às ruas pedia o fim do mandato de Dilma e o fim da era petista no Planalto e até na política brasileira, esta simbolizada pelo Lula inflável gigante com um uniforme de presidiário.
Assim como a Marcha das Margaridas saudada pela presidente na semana anterior parecia não se preocuparcom a violência contra homossexuais ou quem foi abraçar o Instituto Lula não se lembrou da violência na periferia, a manifestação do dia 16 não precisava colocar na pauta a salvação do planeta para se legitimar.
Quem acha o contrário, ou não aceita a realidade e gosta de se auto-enganar, por orgulho ou ingenuidade, ou simplesmente não lhe resta argumentos para desqualificar o mérito da manifestação e fica no mimimiDizer que as manifestações esqueceram de protestar contra isso ou aquilo é o mesmo de querer vencer um debate acadêmico contra Einstein o insultando de feio.
Cuidado com o que se deseja
Neste último ano, os petistas têm mostrado com maestria que faz total sentido a expressão “cuidado com o que se deseja”. A começar pelas próprias eleições de 2014, cuja vitória foi tão desejada que se fez o diabo para vencerem e cuja conta está aí e o diabo parece não parar de cobrar.
Nesta última semana foi feita a denúncia contra Eduardo Cunha pelo Ministério Público Federal no processo da Operação Lava-Jato. Fico a imaginar quantas velas os petistas queimaram desejando que este dia finalmente chegasse.
Ocorre agora que eles estão em uma encruzilhada. Não sabem se desejam o afastamento de Cunha da presidência da Câmara ou se preferem sua manutenção no cargo ao qual foi legitimamente eleito para usar justamente a expressão usada pelo governo para se defender.
Pois bem, se Cunha permanecer no cargo ele pode dar celeridade e terá mais poder de barganha para articular um processo de impeachment contra a presidente, porém o Planalto calcula que ele estará enfraquecido moralmente e talvez valha a pena correr o risco de deixa-lo sangrando, com suas atenções divididas, até porque na hipótese de cassação de mandato pelo TSE, o vice Temer também seria alijado do Planalto e Cunha assumiria a presidência do país interinamente até as novas eleições. E quem desejaria e apoiaria uma coisa dessas?
Por outro lado, se Cunha for afastado da presidência da Câmara, não há certeza sobre o grau de independência que o próximo presidente irá assumir. Sabe-se que a base governista está no momento enfraquecida e não tem condições de cooptar o próximo presidente. Ao mesmo tempo que um afastamento de Cunha alimentará a sua versão da teoria da conspiração que o Planalto estaria lhe perseguindo e pode servir de combustível para inflamar os ânimos dos que ficarem na Mesa Diretora da Câmara. O ponto positivo para o Planalto no afastamento de Cunha seria o distanciamento no curto prazo de um risco conhecido de se ter um opositor declarado na presidência da Casa em tempos que a popularidade e governabilidade do Planalto estão minguando.
Na história do dilema dos prisioneiros da Teoria do Jogos, cujo enredo é cada vez menos metafórico neste caso, ambos os bandidos presos acabam entregando um ao outrocom a esperança de se safarem ou pegarem uma pena mais branda. É a escolha racional de cada um, mesmo que ambos poderiam ter melhor resultado caso cooperassem um com outro. Ou seja, o resultado esperado do dilema dos prisioneiros deveria ser o maior receio do Planalto ao desejar fritar Eduardo Cunha.

O orçamento que não foi: a concepção de Dilma-bomba

A presidente Dilma Roussef perdeu uma oportunidade de ouro de dar um troco no Congresso, que vive a enquadrando e constrangendo-a, ao enviar uma proposta de orçamento na qual as despesas superam as receitas e sem propor alguma solução se quer para este déficit. Foi algo inédito na história.
Os jornalistas logo papagaiaram a versão oficial que isso significava uma mudança positiva de atitude do governo, que agora estava sendo razoável (leia-se sincero) e transparente ao não considerar premissas irreais e nem maquiagens orçamentárias. Já a versão dos bastidores plantada pelo Planalto na mídia amiga e/ou preguiçosa era que esta medida jogava o Congresso contra a parede, pois ficaria com eles a solução dos problemas de orçamento que em parte eles possuem responsabilidade ao criarem dia sim outro também mais despesas com as quais Dilma tem que se virar ou vetar.
Na verdade, esta estratégia do governo Dilma apenas revelou uma extrema ingenuidade política do núcleo duro (ou seria mole?) do Planalto, pois na prática levantou a bola para os críticos e o Congresso cortarem e acusarem o governo de incompetente e irresponsável. E com razão!
Dilma tem que entender que ela possui menos de 10% de aprovação e que aqueles que a aprovam hoje, na atual conjuntura, provavelmente seguirão aprovando-a não importa o que ela faça. Em outras palavras, ela não tem nada a perder e pode arriscar. O que é um risco para o Brasil obviamente. Mas disso resulta que se ela realmente quisesse constranger politicamente a Câmara, poderia usar da mesma moeda com que o Congresso a constrange. Ou seja, ela deveria colocar a previsão da volta da CPMF ou de criação de qualquer outro imposto na peça orçamentária como forma de cobrir o déficit previsto para o ano que vem.
Se este fosse o caso, com quem ficaria o ônus de gerar um déficit e acelerar o processo de perda de grau de investimento caso o Congresso não aprovasse a CPMF? No mínimo, a Câmara Federal teria que propor umaalternativa e não se omitir. Mas da forma que foi feito, não há nenhum incentivo político para o Congresso ajudar um governo que se provou fraco e amador neste processo.
Com episódios como esse que viraram mais regra do que exceção, a presidente Dilma caminha em ritmo galopante para o encurtamento de sua estada no Alvorada. No momento que ela se convencer que seu governo perdeu há tempos capacidade de reação e que o prolongamento deste vácuo de poder só contribui para a deterioração da situação socioeconômica do país, talvez ela renuncie ou articule o aceleramento dos processos que levarão ao seu impeachment só para que lhe reste um discurso de golpe e para talvez emplacar esta versão nos livros escolares de história de nosso país quase nada tendenciosos.
Contudo, até o momento, Dilma demonstra ter a teimosia de fanáticos e uma lógica de psicopatas. Não parece se importar em praticar um suicídio político e trazer consigo para o buraco um país inteiro.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Rap do Desenvolvimento

Coluna publica no A Cidade, em 15 de janeiro de 2011

Um rapper americano canta pra ficar famoso, encher o pescoço de correntes de ouro, comprar um Porsche, sair do gueto, mudar-se para uma mansão e, por fim, para mostrar a todo mundo, por meio de sua música, que ele se deu bem: ficou rico.

O rapper brasileiro canta pra ficar famoso,de preferência com patrocínio público, “tunar” seu Monza, colar um adesivo “100% Periferia” no vidro traseiro e faz poesia romantizando a pobreza e a vida sofrida.

Tanto lá como aqui, o rap é o mesmo estilo musical. Só mudam as letras e as histórias contadas. E isso faz uma enorme diferença, pois embora musicalmente muito parecidos, os raps de cada país refletem culturas totalmente distintas.

Nas letras e atitudes destes artistas estão expostas as aspirações e anseios de parcela da população que, por isso, identifica-se com a música, criando uma empatia e a compra do CD.

Não é de se estranhar que os EUA é um dos países mais desenvolvidos do mundo enquanto o Brasil patina para se desenvolver. Falta ambição. Eles querem ficar ricos e mostrar a todos que conseguiram. E isso faz com que todos também tentem ser bem sucedidos. Aqui, nós queremos ficar ricos e dizer a todos o quão orgulhosos somos de morar numa favela. O importante não é tentar se dar bem e ser bem sucedido. O importante é aceitar a condição de favelado e se orgulhar disso. Afinal, tem até artista que faz musica pra gente dizendo o quanto isso é legal.

Por outro lado, esta característica cultural também explica as estatísticas que mostram o Brasil entre os países mais felizes do globo, enquanto os mais frustrados e infelizes são sempre países mais desenvolvidos, apesar de todo aparato de bem estar social acessível a toda população que existe na maioria destes países. Sem ambição não existe frustração. Estas pesquisas, na verdade, mostram que tem gente (eles) que é feliz e não sabe e tem gente (nós) que não sabe o que é ser feliz.


Tragédia no RJ

Se o clima tem alguma responsabilidade na tragédia, foi a de evidenciar a falta de planejamento em todos os níveis e esferas de governo além da falta de responsabilidade de parcela da população que se instala em áreas de risco. No âmbito do clima, nada que ocorreu era imprevisto ou inesperado para esta época do ano.

Bomba Russa

Coluna publicada no A Cidade, em 29 de janeiro de 2011

O atentado terrorista no aeroporto de Moscou, que ocorreu esta semana, foi o primeiro na Rússia almejado diretamente a civis estrangeiros. Embora o terror causado seja o mesmo caso os alvos sejam civis domésticos ou estrangeiros, atacar os últimos é um claro sinal de tentar mostrar fragilidades no sistema de segurança russo e amedrontar a população global no início de uma década na qual se espera um grande fluxo de turistas para o país. Em 2014, a Rússia sediará as Olimpíadas de Inverno e, em 2018, a Copa do Mundo de futebol.

Além disso, atacar estrangeiros busca também chamar a atenção do globo para o regime autoritário que se instalou no país desde o fim da União Soviética. Yeltsin, Putin e Medvedev – todos os presidentes desde então – foram patrocinadores da criação de uma oligarquia capitalista que tomou de assalto a economia do país e também são coniventes com um sistema mafioso que administra atividades ilegais no país, como contrabando, tráfico de drogas e mulheres e, mais recentemente, “serviços de proteção” ao patrimônio de empresas estrangeiras.

Tudo isso teve início na década de 90. Logo após o desmantelamento da União Soviética, as únicas atividades econômicas minimamente competitivas deixadas de herança por décadas de um regime socialista eram a fabricação de armas e a exploração de recursos naturais: gás e petróleo, principalmente.

Para desenvolver o país e se financiar, o governo russo abriu seus mercados de bens e capital para o fluxo de capitais estrangeiros e paralelamente iniciou um processo de privatização, que era necessário, já que literalmente toda economia estava sob controle estatal. Mas este processo de privatização foi desastroso, pois configurou-se, na prática, por uma transferência de ativos das mãos do Estado para as mãos de grupos familiares que eram próximos ao governo.

Enquanto isso, o país surfou na onda de liquidez internacional de capital que ocorria em meados da década de noventa que serviu para injetar um grande volume de recursos nestas novas empresas privatizadas. Estas, porém, eram pouco interessadas em se desenvolverem o que não impediu os poucos grupos que passaram a comandar a economia ganharem musculatura financeira. E junto com a riqueza veio a vontade de consumir bens de luxo. Afinal os novos czares da economia não se satisfaziam com carros Lada e demandavam BMWs.

Como eles próprios não produziam BMWs, a solução foi importar. E houve uma enxurrada de bens importados na economia russa provocada não só pela demanda interna de bens de consumo dos mais variados, mas também pela valorização do câmbio que sucedeu àquele grande fluxo financeiro para a Rússia.

Neste processo de perder o controle da exploração de seus recursos naturais e possuir uma economia doméstica fragilizada e altamente dependente de importação, o governo russo ficou refém do endividamento externo para se financiar. Uma configuração insustentável ao menor suspiro dos fluxos internacionais de recursos. E foi o que ocorreu em 1998. Aos primeiros sinais de desconfiança dos investidores estrangeiros, que começaram a perceber que seus recursos estavam sendo usados para consumir BMWs e não produzi-las, o fluxo de investimentos foi recuando até o governo russo declarar moratória de sua dívida e o fluxo cessar completamente.

Até na declaração de moratória o ranço autoritário do governo russo se transpareceu, pois o governo declarou moratória não só da dívida em dólares, mas também da dívida em moeda local. Acontece que nenhum país declara moratória em dívida local, pois basta imprimir moeda para pagá-la...

Desde então, o colapso da economia russa apenas fortaleceu a simbiose entre máfia, oligarquias capitalistas e o grupo de poder, pois para manterem o status quo sem os recursos externos, estes grupos tiveram que se sustentar com apoio mútuo. Desequilíbrios neste jogo de poder tendem a gerar estragos maiores que o ocorrido no aeroporto de Moscou.

Temas Recorrentes

Coluna publicada no A Cidade, em 26 de fevereiro de 2011

A última edição do jornal A Cidade trouxe várias matérias sobre temas e assuntos recorrentes da coluna “É a economia!”.

A começar por duas notícias sobre doações de terras para empresas. O colunista é contumaz crítico desse procedimento por parte da prefeitura. Em novembro último escrevi a coluna “Pior lugar para se investir” que tratava do assunto. Hoje, se já não foi votada, está para ser votada a doação de um terreno para o Instituto Banco Ambiental. A proposta do Executivo já possui evoluções, como o estabelecimento de prazos para implantação e cláusula de reversão do terreno e benfeitorias caso estes prazos não sejam cumpridos. Porém, a reportagem deu a entender que a etapa do projeto do Instituto que mais interessa ao município, que é dar um destino ao lixo da cidade, fica no campo da possibilidade sem haver garantias para tanto.

Mas o curioso é a inconsistência da Prefeitura. Uma administração que mostra tanto apreço pela aquisição de bens imóveis cede propriedades do município sem qualquer ônus para as empresas beneficiadas. Obviamente vender o terreno não é um atrativo para empresas, mas concessões onerosas podem ser facilmente absorvidas nas estruturas de custo de qualquer empresa.
Virando a página do jornal, encontramos uma matéria sobre as justificativas da Sabesp a respeito das recorrentes falhas no fornecimento de seus serviços para Pinhal. Lembro de já ter escrito em pelo menos três ocasiões sobre a Sabesp em minhas colunas. Uma das últimas colunas tinha o sugestivo título “Por que Sabesp?”, em março de 2009. Nunca concordei com a forma que se deu a renovação do contrato com a empresa. Para casos semelhantes em concessões públicas, as prefeituras podem requerer o chamado reequilíbrio econômico-financeiro do contrato. Ou seja, exigir compensações da concessionária pelo serviço não fornecido. Ooops, mas me esqueci que em Pinhal o serviço de água não é uma concessão pública. Se o fosse, teria que ser precedida de uma licitação, segundo a Lei das Concessões, o que nunca ocorreu. Tanto que o contrato com Sabesp não é chamado contrato de concessão.

Se for, ele é ilegal.

Não foi por acaso que os técnicos da estatal de saneamento ficaram sem respostas quando questionados pelo vereador Viola a respeito das multas cabíveis nestes casos de falhas da empresa. O mesmo vereador chamou a atenção na Câmara para um outro tema, dessa vez abordado na coluna “Vergonha de trabalhar”, de outubro de 2010. Ao mencionar o alto índice de faltas da unidade da Delphi de Pinhal em relação ao de outras cidades, o vereador mostrou ser evidente a dificuldade que o município enfrenta com a falta de disposição de sua força de trabalho.

E no final tem o carnaval. Nunca escrevi sobre ele, mas as notícias e editorial da última semana sobre o tratamento que a festa vem recebendo da prefeitura e seus desdobramentos no relacionamento com a Camara e a população já é um bom tema para uma próxima coluna.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pior lugar para se investir

Coluna publicada no A Cidade, em 27 de novembro de 2010

Pior lugar para se investir. É este o recado que a administração de Espírito Santo do Pinhal pode estar passando ao mercado ao subsidiar de forma pontual e aparentemente arbitrária algumas empresas e projetos que aqui estão ou que aqui pretendem se instalar.

Estes subsídios são geralmente sob a forma de auxílio aluguel e até de repasse de bens imóveis sem quaisquer ônus aos empreendedores, o que tem sido mais comum recentemente. Eles seriam plenamente justificados num ambiente de recessão econômica e ainda assim deveriam ser temporários. Ou se seguissem uma política de desenvolvimento municipal transparente e planejada, que não é o caso. Em um momento de economia aquecida, como o atual, se uma empresa só se interessa em investir na cidade sob esta condição de concessão de benefícios é porque algo de errado tem por aqui.

Se o subsídio não é uma condição para o investimento ou permanência da empresa, então ele não é necessário e os recursos do município estão sendo mal alocados. Se o subsídio é uma condição para a instalação da empresa, num momento de aquecimento econômico, isto é um indício que a empresa é pouco rentável e competitiva e não deveria ser de interesse da administração sustentar empresas ineficientes. Ou a empresa é até rentável, mas exige um prêmio pelo fato de o investimento ter que ser em Pinhal. Que seria a tese do pior lugar para se investir.

Em economia dizemos que as atitudes carregam informações nem sempre visíveis e nem sempre verdadeiras. É a chamada sinalização. Se um profissional em busca de emprego possui mestrado, ele sinaliza a um recrutador que ele é melhor que seu concorrente que não possui mestrado. Na prática, pode ser justamente o contrário.

Ao dar subsídios para empresas, a Prefeitura sinaliza que: não sabe aplicar seus recursos; ou só beneficia empresas pouco eficientes; ou Pinhal não é um bom lugar para se investir —a ponto de ter que literalmente pagar para empreendedores investirem por aqui.

Neste último caso, o problema pode ser solucionado. Um primeiro passo seria um estudo de diagnóstico do ambiente de negócios da cidade. Deste estudo sairiam os objetivos estratégicos, as vantagens e fraquezas do município e planos de ação para contornar estas deficiências e potencializar ou dar publicidade para as vantagens. O segundo passo, por mais óbvio que pareça, seria pôr em prática este plano de ação buscando atingir os objetivos delineados no primeiro passo. Planejamento é isto. Para tanto, são necessários engajamento e investimentos da administração. Mas os recursos, principalmente os financeiros, aparentemente não faltam.

sábado, 23 de outubro de 2010

Vergonha de Trabalhar

Coluna publicada no A Cidade, em 16 de outubro de 2010

Pela metodologia do IBGE, entre outras, existem duas condições para uma pessoa ser considerada desempregada: a primeira, mais óbvia, ela não deve possuir um emprego regular; e a segunda, ela tem de estar procurando um emprego para entrar na estatística.

Por estes dois critérios, Pinhal deve gozar de uma taxa de desemprego baixa. Infelizmente, mais devido ao segundo critério. Quando estou na cidade, impressiono-me com as histórias que me contam de pessoas que possuem aversão ao trabalho, que não se esforçam para conseguir um emprego e ficam esperando sentadas as melhores oportunidades baterem à porta para, quem sabe, avaliá-las.

Em dezembro de 2005, o antigo dono do bar A Pauliceia concedeu uma entrevista a este jornal, na qual ele foi questionado sobre como era dirigir o empreendimento. Provavelmente esperando palavras que mostrassem sentimentos de orgulho ou alegria, o jornalista deve ter se surpreendido com a sinceridade daquele senhor que, ao responder, descreveu a dificuldade que tinha para atrair e reter seus colaboradores. Foi taxativo: pinhalense não gosta e tem vergonha de trabalhar. E, para exemplificar, ele citou que em nove anos no comando do bar, até então, teve de recrutar mais de 150 pessoas de tão alta que era a rotatividade em seu quadro de funcionários.

A cidade daria um bom estudo de caso para a linha de pesquisa dos vencedores do prêmio Nobel de economia deste ano. Os pesquisadores Peter Diamond, Dale Mortensen e Christopher Pissarides conquistaram o prêmio ao estudar os desequilíbrios nos mercados de trabalho que provocam situações paradoxais como a existência de ofertas de emprego em locais onde sabidamente existem pessoas sem emprego que se qualificariam para as vagas em aberto.

Segundo os economistas, isto é devido às chamadas fricções no mercado, que são criadas pelo fato de ambos os lados da equação —ofertante e demandante— terem de investir recursos e tempo no processo de preenchimento ou procura de uma vaga.

Eles também indicam questões estruturais e institucionais como fatores destes desequilíbrios, entre os quais uma política de seguro-desemprego. Os pesquisadores demonstram que quanto maiores forem os benefícios do seguro- desemprego, mais tempo se leva para um empregador conseguir contratar um funcionário. Ou seja, menores são os incentivos para os “trabalhadores” saírem à procura de um emprego.

Questões culturais, embora sejam de difícil mensuração, também entram no rol das variáveis institucionais que causam desequilíbrios no mercado de trabalho. As fricções do mercado de trabalho pinhalense devem ser desta natureza. As causas destes traços culturais devem ser mais bem estudadas.

Hipóteses: alguma herança aristocrata e a presença de maus exemplos na sociedade —pessoas que parecem ser bem de vida sem nunca terem se esforçado, ou pessoas que são bem de vida, sem parecer que se esforçam para tanto.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Planos Improváveis

Coluna publicada no A Cidade, em 11 de setembro de 2010

Semana passada estive em Pinhal e fui à lotérica apostar no maior prêmio da mega-sena do ano. Ao apostar, é inevitável fazer planos do que fazer com o prêmio caso a gente ganhe.Imagino que quase todo mundo faz isso, até quem não aposta. Enquanto esperava na fila, porém, comecei a ler o verso do bilhete, que tratou de me lembrar de que minha probabilidade de acertar as seis dezenas era de 1 em 50 milhões. Que baque.
Trazido novamente à Terra e ao mundo real de uma fila de lotérica que parecia não andar, quase desisti de apostar. Porém, como já havia decorado os números de minha aposta, já havia me tornado refém deles e não conseguiria deixar de fazer a aposta. Perder a mega-sena não gera frustração. Frustrante é saber que você deixou de ganhar a mega-sena.
Decidido pela aposta, resolvi, porém, ser mais cauteloso em meus planos. Afinal, acertar a combinação do jogo é um evento tão improvável quanto —se não mais— o de você ser atingido na cabeça por um relâmpago no meio da rua.
Ou seja, se vamos fazer planos futuros que envolvam eventos tão improváveis como ganhar a mega-sena, é razoável supor —e deveríamos ao menos considerar— que no caminho nos depararemos com outra sorte de eventos menos improváveis, como um raio na cabeça ou um terremoto em Pinhal... Talvez seja por isso que muitos morremos sem nunca ganhar na loteria. Triste, mas verdadeiro.

O novo estado brasileiro

Reportagem da última semana de Veja sobre o aparelhamento do estado e o acompanhamento da mídia, nas últimas semanas, do caso da quebra de sigilo fiscal de membros da oposição estão trazendo alguns depoimentos de juristas e cientistas políticos que alegam que esses episódios representam uma ameaça ao estado democrático de direito do Brasil. Considero um absurdo pensar dessa forma. Não existe mais ameaça. O estado democrático já foi tomado de assalto há pelo menos cinco anos. Tampouco existe crise institucional, pois as instituições funcionam, mas com um desvio de finalidade. Não servem mais à democracia, mas ao partido/governo.
O governo atual soube confundir ao menos três quartos da população que democracia é crescimento econômico com distribuição de renda e ponto. No demais, nada importa e não amolem, por favor.Outros eventos de corrupção, patrocinados pelo governo ou não, só contribuem para a indiferença e anestesia da população. Enquanto estivermos com emprego e/ou ganhando bolsa, por que vamos reclamar, né? Triste, mas verdadeiro.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Mais Lixo

Coluna publicada no A Cidade, em 17 de Julho de 2010

Pinhal que é uma cidade cheia de ineditismos deve estar prestes a lançar uma campanha peculiar. O lema será: “Não jogue o lixo no lixo”. Trata-se de uma campanha para se parar de utilizar os cestos de lixo instalados recentemente nas principais ruas da cidade.

Os cestos, além de possuírem um padrão estético questionável, primam pela funcionalidade quase nula. Primeiro porque cestos vazados daquela maneira não possuem capacidade de reter todo tipo de lixo jogado neles, causando uma sujeira direta na rua. Por isso, na prática, os lixos se transformaram na maneira consciente e educada de se jogar lixo na rua.

Em segundo, os cestos provam ser pouco práticos para a coleta dos resíduos que conseguem ser retidos por eles – ou se equilibrarem sobre eles. Eles não possuem sacos ou qualquer tipo de mecanismo que gire o cesto para que o lixo caia sobre os cestos dos coletores. Ou seja, eles diminuem sobremaneira a eficiência dos trabalhadores da coleta de lixo do município que tiveram que passar a se dedicar um maior tempo para o recolhimento do lixo dos cestos prejudicando o tempo dedicado a limpeza de outros lugares do município.

No limite, por mais contraditório que pareça, os novos cestos de lixo estão deixando as ruas da cidade mais sujas. E quanto mais forem instalados, mais suja a cidade ficará. As pessoas na presença do cesto sentem-se incentivadas a jogar com maior freqüência e maior volume seus lixos nestes cestos da rua. Mas o cesto não é de boa qualidade, não retém o lixo, que acaba voltando direto pra rua ao cair do cesto. O lixo que consegue permanecer no cesto é coletado por funcionários dedicados a isso, mas eles perdem muito tempo com essa coleta destes novos lixos e, por isso, deixam de varrer algumas ruas (inclusive aquela abaixo do cesto) ou as varrem de forma mais rápida e menos eficiente deixando alguma sujeira sem ser limpa.

No final do dia, as ruas ficam mais sujas gerando a necessidade (i) de se contratar mais servidores para a coleta, o que também é ineficiente do ponto de vista fiscal da prefeitura; (ii) ou de remover os novos cestos (quem autorizou a instalação deles em primeiro lugar?) substituindo-os por outros mais eficientes como aqueles de plástico anteriormente instalados; (iii) ou de se iniciar a campanha citada no início da coluna. Por favor, não utilizem os novos cestos.

Crime Compensa?

Coluna publicada no A Cidade, em 3 de Julho de 2010

Sim. Do ponto de vista econômico, o crime é compensador. Assumindo que agimos racionalmente, a simples existência de criminalidade é um indício que o crime compensa para aqueles que o praticam. Caso não compensasse, não teria porque o criminoso se arriscar.

É justamente uma equação de risco-retorno que um criminoso faz antes de cometer um crime. O retorno é o quanto ele conseguirá financeiramente cometendo o crime. O risco é a probabilidade de ser pego e uma vez preso, a expectativa de se permanecer na cadeia.

Quanto maior o retorno e menor o risco, mais compensador é o crime. Isso explica as altas taxas de criminalidade do Brasil. No país, o crime pode ser considerado uma atividade de baixo risco. Os criminosos dificilmente cumprem integralmente suas penas se e quando são pegos.

A quadrilha que furtou 21 veículos em Pinhal certamente considerava a possibilidade de ser presa. Não é possível não imaginar que se pode ser preso ao roubar tantos carros em uma cidade pequena como Pinhal. Mas o grupo de criminosos também dava como certo que uma vez presos, eles ficariam temporariamente encarcerados. Não tenho atualizações, mas segunda a última edição do jornal A Cidade, a quadrilha já deve estar em liberdade numa hora dessas. Você tem certeza que seu carro está na garagem neste momento?

Inoperância compensa?

Sim. O caso do aterro sanitário da cidade mostra que governar sem planejamento, sem iniciativa e sem responsabilidade não deve trazer prejuízo algum aos governantes e seus assessores. Caso corressem algum risco de perda de emprego ou mandato, os responsáveis na prefeitura pela situação do aterro não deixariam a questão chegar ao ponto que chegou.

A proposta de Serra para o governo federal vale para Pinhal: é necessário estatizar a administração municipal. Pois ela não demonstra servir aos interesses públicos ou não se mostra capaz de fazê-lo. Até quando o prefeito vai esperar para realizar uma avaliação de desempenho de seu secretariado para perceber que muita coisa precisa e pode ser melhorada em seu governo.

Tenho a crença que o prefeito quis se reeleger por motivos bem mais nobres e públicos do que simplesmente para engordar sua pensão vitalícia.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Contran quer causar acidentes

Coluna publicada no A Cidade, em 5 de junho de 2010

Semana retrasada foi noticiado que o Conselho Nacional de Transito, o Contran, lançou campanha sobre a obrigatoriedade do uso de cadeirinhas de segurança em carros para as crianças de até sete anos. A resolução do próprio Contran terá um efeito prático previsível: o aumento de acidentes graves ou fatais com crianças. Isso mesmo. A obrigatoriedade de cadeirinhas de segurança trará mais insegurança ao trânsito e às crianças.

Isto é esperado devido ao incentivo que as pessoas possuem de serem menos cautelosas quando elas se sentem seguras. Ou seja, uma vez obrigado a prender seus filhos em cadeirinhas, as pessoas terão certeza de que elas estarão sempre seguras, logo não precisarão mais ser tão cautelosas na condução dos veículos. É o ambiente propício para o aumento de acidentes. Parece improvável, mas é uma reação natural do ser humano. Em economia, esta atitude é chamada de risco moral.

Para provar meu argumento, proponho um experimento ou exercício mental. Para não fugir muito do tema, o experimento também envolverá carros. O desafio será transportar duas latas de tinta no banco de trás do automóvel de um lado ao outro da cidade no menor tempo possível. Sujar o banco com tinta implica desclassificação. As latas devem ser transportadas uma de cada vez. Uma será transportada com tampa e a outra sem tampa. Dado que não se pode derramar tinta, em qual das duas situações as pessoas irão conduzir o carro com mais cuidado? É claro que será na situação com a lata de tinta aberta.

A tampa da lata de tinta do experimento é a cadeirinha de segurança que o Contran nos obriga a usar. O mesmo acontece com cintos de segurança e airbags. Quanto maior a sensação de segurança, maior a probabilidade das pessoas se envolverem em acidentes. Itens de segurança funcionam como um incentivo à imprudência. O melhor incentivo às atitudes prudentes seria uma série de itens de "ameaça" e não de segurança. Imaginem como seria o trânsito se ao invés de cinto de segurança as pessoas fossem obrigadas a dirigir com uma lança sobre o volante apontada para seus respectivos peitos.

Quem quer vender um carro bom?

Coluna a ser publicada no jornal A Cidade, em 19 de junho de 2010

Você já comprou um carro usado? Pela quantidade de estacionamentos e concessionárias de carro em Pinhal, eu imagino que muita gente na cidade já tenha comprado pelo menos um carro usado na vida. Pois bem, para aqueles que já tenham feito isso, foi comum encontrarem problemas no carro, não? Digo isso, pois em teoria, a probabilidade de se encontrar um carro usado de boa qualidade é muito pequena.

A explicação é a seguinte: vamos supor que no mercado existem proprietários de carros bons e de carros ruins desejando vendê-los. Os únicos que conseguem saber se o carro é bom ou ruim são seus respectivos proprietários. Os compradores não conseguem fazer a distinção entre um carro bom e um ruim, seja por ignorância ou por conta dos defeitos dos carros estarem muito bem acobertados.

Esta falta de informação sobre a qualidade do automóvel faz o comprador ficar propenso a pagar por um carro usado somente um preço médio ponderado, entre os preços-justos de um carro bom e de um ruim. Por exemplo, os compradores possuem a percepção que metade dos carros no mercado é de boa qualidade, mas a outra metade é ruim e eles custam R$ 30 mil e R$ 10 mil, respectivamente. Como eles não sabem distinguir um do outro, eles ofertarão apenas R$ 20 mil por carro (média ponderada de R$ 30 mil e $ 10 mil).

Com uma oferta de R$ 20 mil, o proprietário do carro de boa qualidade não vai querer fazer negócio, pois ele sabe que o carro dele é bom e que ele vale R$ 30 mil. Já para o proprietário do carro ruim é um bom negócio aceitar os R$ 20 mil, pois ele sabe que o carro dele vale R$ 10 mil.
Ou seja, o mercado será invadido por ofertantes de carros de má qualidade, pois os de boa qualidade não terão interesse de entrar no mercado aos preços ofertados. Logo, carro usado que esteja a venda vira sinônimo de carro ruim neste modelo.

Em economia esta situação se deve as chamadas imperfeições de mercado, que no caso são duas: (i) assimetria de informação, que é a divisão desigual de informações entre os agentes – o vendedor conhece melhor o produto do que o comprador. E (ii) seleção adversa, que no caso é refletida na predominância de automóveis com atributos indesejáveis no mercado.

Acredite ou não, estas idéias, com este mesmo exemplo, estão presentes em um artigo acadêmico de 13 páginas que rendeu ao seu autor, George Akerlof, o Prêmio Nobel de Economia de 2001. As idéias se fundamentam em uma duvida natural que deve (ou ao menos deveria) permear toda negociação que é a “se ele quer vender tal coisa, porque eu devo comprá-la?”.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Álbum da Copa

Coluna publicada no jornal A Cidade, em 15 de maio de 2010

Assim como em 2006, o álbum da Copa de 2010 virou uma febre nacional. Isso não é diferente em Pinhal, como apontou o AC algumas semanas atrás. Estive recentemente em um domingo na cidade e fui trocar figurinhas na praça com meu afilhado -para o meu álbum e para o dele também. Minha primeira surpresa foi a quantidade de pessoas que estavam lá trocando as figuras, mas outra coisa que me chamou a atenção foi a existência de pessoas com quantidades enormes de figuras repetidas.

Estas pessoas com grandes quantidades de repetidas não souberam investir no álbum. O investimento máximo necessário para se completar o álbum é de exatos R$ 96. O que equivale a 128 pacotinhos de cinco cromos resultando nas 640 estampas que fazem parte do álbum. Com este investimento, garante-se que o número de repetidas obtidas equivalerá ao número de figuras faltantes no álbum. Ou seja, fazendo trocas na proporção um pra um, completa-se o álbum. O mercado se ajusta. Assim prevê a teoria econômica.

Para que esta situação ocorra, a teoria assume que os mercados são perfeitos e seus agentes, racionais. Credito o sobreinvestimento de um colecionador de figurinhas da Copa a falhas em ambas as premissas da teoria. Por mais que muitas pessoas e figurinhas vão à praça nas manhãs de domingo, creio que a quantidade de "mercadoria" e agentes não seja suficiente para um ajuste perfeito de mercado. E também creio que alguns destes agentes não sejam racionais no processo de aquisição de pacotinhos, querendo disputar algum tipo de status por obter um grande número de repetidas ou simplesmente ignorando a possibilidade de trocas. Mas também muitos outros agentes são levados a sobreinvestir em decorrência da primeira falha de mercado: como o mercado não se ajusta perfeitamente, é necessário comprar mais pacotes para elevar as possibilidades de troca.

Destas falhas de mercado do álbum da Copa derivam outras como o chamado poder de mercado: o sujeito com um monte muito grande de figurinhas pode concorrer de forma desigual com os demais ao oferecer, nas trocas, um número maior de cromos por uma mesma figura. E as pessoas que estão quase completando o álbum também tendem a "pagar mais caro" por suas estampas faltantes do que aquelas que estão começando o álbum.

Aproveitando-se destas falhas e voltando ao conceito de investimento necessário no álbum, é possível gastar menos deR$ 96 e completar mesmo assim o álbum. Bastaria adotar uma estratégia de cambiar figurinhas somente com aqueles que pagam caro por elas. Nem que seja para trocar uma repetida por figuras que a pessoa já possui, mas que fará suas possibilidades de troca aumentarem sem a necessidade de compra de mais pacotinhos. Neste caso, o sujeito estaria gerando valor no mercado de figurinhas da Copa.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um mercado para o silêncio

Coluna publicada no A Cidade, em 17 de abril de 2010

Parece haver um verdadeiro embate na cidade entre os silenciosos e os barulhentos. Já foram feitas manifestações públicas a favor e contra uma lei de tranquilidade pública. Ambos os lados em conflito dizem representar a maioria da população. Mas como saber de qual lado a maioria realmente está?

Em um ambiente desses, como os vereadores da cidade irão amparar suas decisões se desejarem refletir o anseio da população?

Fazer um projeto que simplesmente proíba carros de som e festas ao ar livre significa partir da premissa de que todos possuem direito ao silêncio. Tenho dificuldades para me convencer da validade desta premissa. Considero-a um tanto quanto autoritária para um regime democrático de direito.

A disputa entre silenciosos e barulhentos existe porque o silêncio -e o barulho também- é um estado da natureza que atinge a todos uniformemente e sem que ninguém tenha que pagar por ele: é grátis. Ou seja, é um típico bem público. O problema dos bens públicos é que como niguém precisa e nem deseja pagar por eles, não há incentivos também para alguém fornecê-los. E, neste caso, se justifica uma intervenção do estado para regulamentar esta oferta ou mesmo criar uma oferta de um bem público.

No caso da lei da tranquilidade pública de Pinhal, seria bem mais interessante se ela fosse capaz de regulamentar as atividades barulhentas, mas ao mesmo tempo criasse mecanismos de mercado para a solução do problema.

Um exemplo seria a lei limitar a oferta dos servicos de carros de som na cidade, mas também criar um mecanismo de leilão para a comercialização dos anúncios publicitários nestes veículos. O leilão seria disputado entre os anunciantes e aqueles que desejam o silêncio na cidade.

Se o anunciante fizer a melhor oferta de preço, o carro de som sai às ruas fazendo barulho. No caso dos defensores da tranqulidade urbana terem uma melhor oferta de preço aos donos dos carros de som, eles pagariam estes comerciantes para manterem seus carros na garagem.
Desta forma, tanto o barulho quanto o silêncio passariam a ser precificados e poderiam, com isso, ser comprados. O grupo que hoje é a favor da tranquilidade urbana se revelaria -mostrando seu verdadeiro contingente- e teria a oportunidade de adquirir aquilo que eles julgam ser de seu direito. O mesmo seria válido para os anunciantes que hoje já se manifestam desta forma: ou seja, eles já pagam pelo direito que eles têm de fazer barulho.

Se o silêncio for algo realmente valioso para um grupo de pessoas, ele não deve valer menos do que um anúncio de carro de som de Pinhal.

Um outro mecanismo de mercado similar a este para a solução do problema da tranquilidade urbana poderia ser a criação de um mercado de créditos de decibéis, a exemplo do que existe hoje com os créditos de carbono. Os agentes que tipicamente fazem barulho passariam a ser remunerados para cada decibel a menos emitido em relação ao que eles emitem atualmente. Mas quem pagaria por esses decibéis poupados? O mais justo, como no caso dos leilões, seria os mais afetados pelo barulho pagarem por isso.

sábado, 3 de abril de 2010

Ciclos políticos e econômicos

Coluna publicada no jornal A Cidade, em 3 de abril de 2010

Algumas semanas atrás, recebi uma mensagem eletrônica pelo telefone de um político da região. Imagino que a mensagem deve ter batido altos papos com secretárias eletrônicas, sinais de fax e curiosos como eu. A mensagem era pra anunciar a publicação de um relatório das atividades do referido político. Basicamente o telefonema era pra fazer propaganda da propaganda política.

O episódio me fez lembrar como um ano eleitoral movimenta alguns setores econômicos do país. Isto acontece mais claramente e diretamente nos setores de gráficas, de serviços de propaganda e marketing e publicações de periódicos, como este jornal.

Os impactos econômicos de um evento de eleição não são corriqueiros, tanto que existem estudos sobre assunto e que correlacionam os ciclos econômicos com os ciclos políticos. De forma mais ampla, esta linha de estudos não só aborda estes efeitos mais diretos na economia, mas também consideram as políticas macroeconômicas e setoriais dos governos que tentam se reeleger ou elegerem seus sucessores.

O anúncio do PAC 2, que ocorreu na última segunda-feira, é só uma das facetas que evidenciam esta influência do calendário político sobre a economia. O aumento dos investimentos públicos, nestas épocas, tende a causar inclusive distorções nos mercados e desabastecimento de alguns produtos. Uma preocupação corrente do setor de construção é a garantia de fornecimento de asfalto. Neste ano talvez seja necessário importar asfalto no Brasil, pois a Petrobras, única fornecedora do produto, não terá condições de abastecer toda a demanda que se projeta para as obras de infraestrutura do país.

Por outro lado, a depender do cenário eleitoral, alguns setores da economia podem contrair seus investimentos previstos com receio de eventuais instabilidades políticas do futuro. Foi isso que ocorreu em 2002, quando um clima de terror se instalou nos mercados financeiros durante o período eleitoral.

Neste ano, é quase consenso que as diretrizes econômicas não serão alteradas qualquer que seja o vencedor das eleições, entre Dilma e Serra. E consensos por si só são motivos de preocupação.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Risco-retorno do mercado de trabalho

Coluna publicada no jornal A Cidade de 20 de março de 2010

Nos investimentos financeiros vale a correlação positiva entre o risco e o retorno. Ou seja, quanto maior o risco do investimento, maior é o retorno esperado e vice-versa. Ações são investimentos mais arriscados e por isso tendem a ter maior retorno esperado, já a poupança é quase livre de risco e por isso rende relativamente menos. A lógica é simples: se algo tem um retorno financeiro muito incerto -maior risco- eu, como investidor, vou exigir e esperar receber um prêmio pelo risco de aplicar minhas economias neste ativo.

O que poucos sabem é que este conceito pode ser aplicado para muitas outras situações em nosso cotidiano, muito embora muitos já o apliquem mesmo que de forma inconsciente. Um exemplo mais típico é o caso do mercado de trabalho. Ao escolhermos onde mandar currículos ou ao escolher entre duas oportunidades que aparecem ou termos que decidir sobre mudar de emprego ou não, a análise de risco-retorno sempre pode ser aplicada.

Quando a dúvida é abrir uma empresa pequena ou trabalhar em uma empresa grande, pode-se ponderar: na empresa grande é mais garantido eu manter minha empregabilidade, mas posso levar mais tempo para evoluir na carreira e terei mais concorrentes para isso, logo é um emprego mais estável. Porém, possui retorno menor em relação ao de uma empresa pequena onde coloco minha carreira em risco por conta dos riscos inerentes à operação de um negócio pequeno, mas, por outro lado, se a companhia obtiver sucesso no mercado, ela crescerá de forma rápida assim como minha carreira - e carteira.

Outros casos são os dos empregos oferecidos no exterior, em países subdesenvolvidos ou em regiões menos desenvolvidas do Brasil. Não é à toa que as vagas que surgem para estes lugares sempre pagam mais que uma equivalente nos grandes centros. Para uma pessoa sair do conforto do grande centro, onde existem outras oportunidades, e viajar para um lugar desconhecido, com risco não só de natureza profissional, mas também riscos sociais como a violência e presença de doenças endêmicas, esta pessoa certamente exigirá um salário mais alto.

Para os que prestam concursos públicos, isto também é verdade. Investir em concurso público é investir na poupança do mercado de trabalho. O sujeito que quer virar funcionário público não possui muita ambição profissional, pois os cargos públicos, ao contrário dos privados, possuem um teto salarial. Ou seja, tem-se a garantia de estabilidade no emprego - menos risco-, porém com um limite de retorno. No mercado profissional das empresas privadas, este teto salarial não existe, tampouco a estabilidade de emprego existe.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ações de longo prazo ou apostas

Coluna publicada no jornal A Cidade de 6 de março de 2010

Na coluna desta semana volto a falar do mercado de ações. Já é amplamente divulgado que investimentos em ações são recomendados para aqueles que vislumbram retornos de longo prazo. No entanto, por mais óbvio que pareça, os investidores devem atentar para o momento do ciclo em que eles entram no mercado acionário. Ou seja, de nada adianta comprar ações em níveis de preços historicamente altos, se eles podem cair e nunca mais recuperar tais patamares. Nem mesmo o mais longevo investidor recupera seu investimento neste caso. Na história das bolsas de valores mais antigas do mundo, a de Nova Iorque e a de Londres, os picos de preços das ações tiveram intervalos de cerca de 30 anos entre um e outro -o último pico registrado foi em 1999 em ambas as bolsas. Uma explicação para ciclos tão longos pode ser o desânimo generalizado e persistente que toma conta dos investidores após uma derrocada dos preços acionários. Um estudo recente relacionou estes ciclos com a demografia. Os períodos nos quais a faixa etária dos 30 a 50 anos é mais populosa caracterizam-se por mercados em alta, pois esta é a faixa etária na qual as pessoas estão mais propensas a poupar. Quando esta geração começa a se aposentar, ela resgata suas economias -vende suas ações- e pressiona o mercado para o campo negativo.

É interessante também notar que, mesmo sendo um investimento de longo prazo, são poucos os dias que fazem a diferença na rentabilidade das aplicações em ações. Conforme notou um professor meu de mestrado, se retirarmos os cinco dias de maiores altas da bolsa de São Paulo e compararmos uma aplicação na bolsa com uma em um fundo que rende CDI, durante o período de 1999 e 2007, o investimento do CDI rende mais. Ou seja, a bolsa só "bate" o CDI neste período em virtude destes cinco dias!

Esta é uma evidência adicional de que também não vale a pena buscar ganhos de curto prazo na bolsa, tentando comprar na baixa e vender na alta nos pequenos ciclos que ocorrem. Isto é válido somente se houver tempo para uma dedicação integral no acompanhamento dos movimentos das ações. Sem esta dedicação, os investimentos de curto prazo viram loteria. E, se for para ser desta maneira, é preferível buscar rentabilidade em coisas mais lúdicas e divertidas, como as apostas esportivas. Esta semana, um colega meu conseguiu um retorno de 300%, durante o jogo do Brasil, ao apostar em eventos tão triviais como afirmar que o primeiro lance de bola parada no segundo tempo do jogo seria um lateral.