O blog
sábado, 28 de março de 2009
Quem mexeu no meu bônus?
O escândalo dos bônus distribuídos aos dirigentes da seguradora norte-americana AIG adicionou lenha na fogueira da já polêmica discussão acerca da remuneração de executivos de grandes corporações.
Opinião pública e políticos norte-americanos condenaram a prática de se pagar bônus milionários para os funcionários de uma empresa à beira da falência que sobrevive graças aos aportes de US$ 180 bilhões do governo norte-americano. Por esta ótica simplista, isto de fato é nonsense. Porém colocando as emoções de lado e analisando mais friamente o episódio, é possível achar razões e explicações para a atitude da AIG.
Primeiramente é importante ressaltar que o governo norte-americano ter transferido bilhões para a AIG não significa uma aprovação por parte do governo da gestão financeira da empresa. A operação de salvamento da AIG foi feita por necessidade, para salvar o sistema financeiro como um todo. Ou seja, para evitar um dano maior ao país e ao globo do que os bilhões utilizados no socorro a empresa.
Mesmo assim, a atitude do governo dos EUA de condenar a distribuição de bônus da AIG é cabível? Eu creio que não. Caso o governo quisesse interferir na gestão da empresa, que o fizesse estatizando de fato a empresa e mudando sua gestão e políticas de bônus.
Ademais, esta postura do governo norte-americano só dificulta seus planos de salvar o sistema financeiro. Se a ajuda a instituições financeiras for seguida de interferências não acordadas previamente, criar-se-á incentivos para os bancos em necessidade começarem a rejeitar as ajudas do governo.
Voltando à questão central, o que explicaria a opção da AIG pela distribuição de US$ 160 milhões aos profissionais responsáveis pelo fracasso financeiro da seguradora?
Uma razão, a mais óbvia, é o cumprimento de contratos previamente acordados com estes profissionais. Mas até aí a empresa poderia optar por renegociá-los ou pagar o acordado e, em seguida, demitir estes funcionários.
Uma razão menos óbvia que levou a empresa a não fazer isso foi a de preservação da essência de sua política de remuneração variável. E esta explicação passa pelos incentivos (sempre eles) e sinalizações que uma política de bônus procura desenvolver quando uma empresa opta por esta maneira de remunerar seus funcionários.
Ao adotar uma política de bônus, a empresa visa criar incentivos para seus executivos tomarem riscos e buscarem a maximização de valor da empresa. Paralelamente, a empresa também busca com isso atrair os maiores talentos do mercado. Portanto, a ganância tão atacada pelos opositores deste sistema remuneratório nada mais é que um fruto dos incentivos criados por essa política. Sem dizer que sem esta ganância, o desenvolvimento do sistema capitalista e os ganhos de produtividade da economia teriam evoluído a passos de tartaruga nos últimos 20 anos.
Ao final de um período de prejuízo, no entanto, as empresas muito agressivas na remuneração variável de seus funcionários se veem em uma encruzilhada. Elas devem definir se cortam os bônus e com isso a confiança e motivação da equipe ou se bancam o bônus (ou parte significante dele), nem que isso aumente o prejuízo, pensando na manutenção dos incentivos e sinalizando, com isso, que a empresa confia e conta com a capacidade da equipe em reverter o cenário negativo.
Obviamente, o desfecho desta decisão passa pela análise dos fatores que levaram a empresa ao prejuízo. Analisa-se se foram situações e mudanças de conjuntura fora do controle dos executivos ou se foram situações diretamente relacionadas às decisões tomadas por estas pessoas ou mesmo um misto de ambos que frustraram os resultados da empresa.
No caso da AIG, sob este aspecto, a distribuição de bônus é justificável. Que os responsáveis pelo definhamento da empresa foram gananciosos e irresponsáveis não pairam dúvidas (e foram incentivados para serem). Que eles são incompetentes, eu já acho que não. Se o fossem já teriam sido demitidos. Portanto, dado que a empresa aparentemente acredita ser a mesma equipe que colocou a AIG nesta situação a mais apta para tirá-la do buraco, nada mais justo que manter os incentivos e a confiança destes profissionais ao honrar o que havia sido pactuado anteriormente. Doutra forma, qual seria a motivação destes funcionários para salvar a empresa?
E o que a empresa sinalizaria caso quebrasse este acordo prévio? Daqui a cinco anos, na hipótese de a seguradora se recuperar e se tornar uma potência no setor, você enviaria seu currículo para uma vaga na AIG que prometesse bônus extraordinários?
Por que Sabesp?
O editorial do AC de duas semanas atrás, procurou chamar novamente a atenção para o pendente desfecho da concessão dos serviços de saneamento em nossa cidade. O texto trata de um assunto importante para ser ignorado e o próprio jornal deveria colocar na pauta de suas edições seguintes a opinião dos dirigentes de Pinhal a respeito do assunto. Os editores do AC, porém, passam a impressão de que descartada a opção pela municipalização dos serviços, restaria a renovação do contrato com a Sabesp como única, ou melhor, opção a ser feita.
Em fevereiro do ano passado esta coluna tratava do mesmo assunto. Resgato hoje algumas das opiniões, ainda válidas, que ali foram colocadas.
Primeiramente, se ainda não é, já deveria ser consenso que o município não tem condições técnicas e principalmente financeiras de assumir os serviços de saneamento e os investimentos necessários para tanto.
No entanto, isto não significa que só resta a opção Sabesp para Pinhal. Outras empresas privadas estão cada vez mais dispostas a investir em projetos de água e esgoto e a assumirem concessões municipais de saneamento.
A concessão dos serviços de água e esgoto é um ativo valioso. Quanto vale? Não sei. Só uma avaliação econômico-financeira poderia dizer. Mas isto é algo que se já não foi feito, já deveria ter sido providenciado. No momento, ninguém melhor que a Sabesp tem as informações necessárias e a avaliação de quanto vale esta concessão. Não é a toa que ela se apresenta como a mais interessada na renovação do contrato, inclusive oferecendo planos de investimento e expansão dos serviços. Se a concessão valesse pouco, ela não ofereceria tanto. Mas como extrair a melhor negociação com a estatal? Somente procurando saber quanto vale este contrato.
Em Mogi-Mirim, a solução encontrada pelo município para maximizar os ganhos para a cidade foi fazer uma licitação pela concessão dos serviços de saneamento. Nada mais justo. Não se apronta um escândalo para compras e contratos da prefeitura que são feitos sem licitação? O que dizer então de um contrato de 30 anos para um serviço essencial a população e que envolve milhões de investimento? Por que não uma licitação?
Obviamente para esta opção, deve-se primeiramente fazer uma sondagem para verificar se existiriam empresas interessadas, formatar um edital e minuta contratual blindados para haver transparência e poder atrair o maior número de participantes. Uma sugestão já seria estabelecer investimentos mínimos (iguais ou maiores aos oferecidos atualmente pela Sabesp). O vencedor poderia ser aquele que apresentasse a menor tarifa ou um misto de menor tarifa com maiores investimentos. O que melhor se adequar a necessidade do município.
No caso de Mogi-Mirim, o vencedor da licitação foi um consórcio formado pela própria Sabesp e por outras empresas privadas.
Temos dois exemplos, próximos a Pinhal, de soluções distintas para o problema de renovação de contrato com a Sabesp. Um é o de São João da Boa Vista que optou pela renovação sem licitação e outro o de Mogi-Mirim que optou pela licitação. Antes de qualquer coisa, uma visita a estas cidades para estudar a viabilidade e os pros e contras de cada solução torna-se imperativa para as pessoas de Pinhal a cargo desta negociação que estejam realmente interessadas no que for melhor para a população.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Os verdes em xeque
Há algum tempo economistas e pesquisadores de outras áreas tentam precificar as amenidades do meio ambiente. Quanto custa o ar despoluído? Qual o valor de uma mata nativa? Por serem bens que não possuem mercado onde possam ser comercializados, a estimação de seus preços é um desafio. A definição desses valores seria útil na determinação de multas para crimes ambientais e também para uma melhor análise sócio-econômica de projetos (talvez seja justificável fazer um pequeno desmatamento em uma região se o projeto proporcionar retornos sociais extraordinários).
Muitos ambientalistas, porém, são intransigentes e refutam esta abordagem econômica da natureza. Argumentam que o meio ambiente deve ser preservado a qualquer custo. O curioso é que na maioria dos casos, os próprios ambientalistas se recusam a incorrer nos custos de preservação ambiental.
Um exemplo recente está no programa de concessão de uma extensa reserva florestal em Camarões. O ministro do meio ambiente daquele país diz que poderia conceder a área para a exploração econômica a ser feita por uma empresa madeireira, mas prefere concedê-la a um grupo ambientalista qualquer a fim de preservar a floresta tropical da região. A concessão, no entanto, tem um preço: 1,6 milhões de dólares por ano (US$ 2 por hectare). Até agora, nenhuma ONG de preservação ambiental se propôs a pagar para preservar a vasta área no sul do país africano.
A idéia de conceder florestas para a preservação é uma idéia recente e que já possui casos de sucesso. A organização ambiental WWF já preserva áreas concedidas em países como Peru e Guiana, mas a um preço muito menor que o pedido pelo governo camaronês. Esta foi a justificativa deles ao refutarem o projeto de Camarões. Mas o meio ambiente não deveria ser preservado a qualquer custo? E o avanço das pastagens, plantações e extrativismo, que tornam as matas nativas cada vez menores não teria justamente o efeito de torná-las cada vez mais caras (por estarem mais escassas e ameaçadas)?
Esta atitude contraditória dos ambientalistas põe em xeque suas reais intenções e benefícios que proporcionam ao meio ambiente. Tem-se a sensação que os recursos arrecadados por estes grupos são destinados mais para fazerem barulho e mídia do que para projetos que de fato conservam o meio ambiente.
As ONGs ambientais são altamente dependentes de doações e convênios com entidades públicas. Da mesma forma que se costuma dizer que no Brasil existe a indústria da seca, pode-se argumentar que os ambientalistas fomentam a indústria do "próximo cataclismo ambiental". Na mídia, há sempre um desastre ambiental em vias de acontecer cuja fonte da notícia, invariavelmente, é um grupo ambientalista. A iminência de uma catástrofe é necessária para a manutenção do fluxo de recursos destinados à ONG. Se a expectativa é que nada sendo feito tudo permaneça inalterado pelos próximos 50 anos, ninguém vai querer doar dinheiro aos ambientalistas.
Este método de atuação das ONGs ficou evidenciado 7 anos atrás quando o estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg lançou um livro chamado O Ambientalista Cético. Nele, Lomborg conseguiu provar usando dados estatísticos oficiais que o meio ambiente não se encontrava em um estado tão catastrófico quanto o alarmado a época pelos ambientalistas.
O livro caiu feito uma bomba entre os verdes. Mas a reação predominante foi rechaçar os argumentos do dinamarquês atacando sua reputação e não seus métodos. Como aparentemente os donativos às ONGs não cessaram em função da publicação do livro, não houve necessidade de fazerem uma revisão em seus estilos de atuação. Ficamos, portanto, no aguardo da próxima era do gelo.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Não culpem a bola de cristal
É comum analistas de mercado, ao projetarem a demanda de um setor ou empresa específica, lançarem mão da utilização de uma elasticidade-PIB para explicar o comportamento futuro do mercado em questão. Mas o que quer dizer essa elasticidade-PIB? E sempre faz sentido usá-la?
A grosso modo a elasticidade-PIB da demanda de um setor, digamos energia elétrica, é a sensibilidade que o mercado de energia tem a variações do PIB brasileiro. Ou seja, tudo o mais constante, uma elasticidade-PIB unitária significa que o mercado de energia elétrica evolui no mesmo ritmo que a economia do país. Se essa elasticidade valesse e o PIB crescesse 5%, a demanda de energia elétrica subiria 5% também.
Análises de mercado embasadas em elasticidades-PIB fazem todo sentido quando existe uma justificativa econômica para se supor que o PIB do país explica este ou aquele mercado específico. A utilização indiscriminada de uma elasticidade-PIB, no entanto, peca pela simplicidade, pela falta de rigor técnico e pelo risco de se fazer relações espúrias, ou seja, relacionar alhos com bugalhos.
No limite, se o analista considera que o PIB explica a evolução de todos os mercados, gera-se um problema de endogeneidade: usa-se o PIB para explicar tudo, quando na verdade é o PIB o que é explicado por tudo. Ademais, estimar elasticidades minimamente confiáveis demanda séries históricas mais longas, que no caso do PIB brasileiro é um pouco complicado obter ainda mais com a sua recente revisão de metodologia de cálculo.
Alternativamente à elasticidade-PIB, o analista pode estimar elasticidades com outras variáveis econômicas mais relevantes para o mercado sob análise, inclusive com a aplicação de modelos multifatoriais. Afinal, nada é tão simples para ser explicado por uma única variável. No rol de opções de outras variáveis econômicas estão a produção industrial por subsetor, dados de emprego e renda, importações e exportações, índices de preços entre outros.
A questão que surge é: existe demanda para este tipo de análise um pouco mais aprofundada por parte do analista? Primeiramente, para partir para uma análise com diversos fatores, o analista precisa do suporte de outra área de pesquisa que projete estas outras séries utilizadas em seus modelos de mercado. De que adianta modelar a demanda de energia elétrica usando a taxa de ocupação da população se ninguém vai fornecer posteriormente os inputs de projeção desta taxa de ocupação?
Ainda assim, alguém acreditaria mais ou acreditaria menos em uma análise de mercado embasada em modelos de maior sofisticação em relação às análises com elasticidade-PIB? E se todos estão satisfeitos "comprando" relatórios com elasticidade-PIB, por que o analista se sentiria compelido a mudar seu método de projeção?
Ou seja, a melhora nas análises de mercado que empresas e analistas elaboram deve ocorrer a partir do momento que os consumidores destas análises demandarem maior aprofundamento e rigor. A bola de cristal das projeções econômicas existe e funciona. Só é preciso saber manuseá-la.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Fórum Social (?) Mundial (?)
Esta semana, em Belém do Pará, teve início o Fórum Social Mundial 2009. Como o site do próprio Fórum diz, o objetivo deste encontro de movimentos sociais é estimular o debate, a reflexão, a formulação de propostas, a troca de experiências e a articulação para a construção de um outro mundo, mais solidário, democrático e justo.
Não precisa passar para o segundo parágrafo que versa sobre seus objetivos para compreender que o Fórum é impotente para não dizer que beira a inutilidade. Vejam bem: um encontro que visa "construir um outro mundo", que não prevê um plano de ação, que não possui representantes com posições executivas em governos ou empresas e que só se propõe a fazer debates ou reflexões nunca vai conseguir construir algo efetivamente. Construção só com falatório não existe, ainda mais se tratando da construção de um novo mundo.
Consultando a programação do evento, verifica-se que há nada mais nada menos que 1.964 atividades programadas para ocorrerem durante os seis dias do Fórum. Entre as atividades previstas estão um painel sobre a relação do movimento de catadores com a globalização econômica, uma mesa de diálogo com o tema "Petrobras Assassina" e um seminário sobre meio século de "vitórias do povo cubano". Pode-se imaginar que estes exemplos são as exceções do evento. Mas não são.
Já que o Fórum tem finalidade social, resolvi procurar por atividades que diziam respeito ao problema da pobreza e da fome na África. Resultado da pesquisa? Zero. Nenhum evento previsto sobre o tema. O fórum que se diz social e se diz mundial dá as costas para o lado mais pobre do planeta.
Com uma rápida visita ao site do outro Fórum, o Econômico Mundial de Davos, pode-se constatar que de fato o de Belém é o contraponto do primeiro. Afinal, o de Davos possui o que o Fórum Social não foi capaz de desenvolver em nove anos: ações concretas. Neste site existe um link exclusivo para o acompanhamento de todas as iniciativas e planos de ação desenvolvidos pelo Fórum Econômico ao longo dos últimos anos. Existem, inclusive, algumas iniciativas de cunho social. Aliás, o Fórum suíço é explícito, em seu site, ao dizer que o progresso econômico sem o desenvolvimento social não é sustentável.
Enquanto de um lado do mundo existem discussões e discursos prolixos, do outro existem debates e iniciativas visando à tomada de decisões e atitudes concretas.
Não é necessário dizer que enquanto o Fórum Econômico é uma organização sem fins lucrativos sustentada por doações da iniciativa privada, o Fórum Social custou este ano R$ 90 milhões, dos quais R$ 80 milhões foram doados pelo Governo Federal. O que realmente querem aqueles que vão a Belém?
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Milhas, bônus e monetarismo
Programas de milhagem e bônus de cartão de crédito são verdadeiros mecanismos de emissão de moeda. Neste caso, a moeda em questão é usada tão somente para transacionar mais passagens aéreas ou outros produtos à disposição no catálogo do programa.
Nos últimos anos, tem-se observado que os órgãos emissores destas milhas e bônus têm conduzido suas "políticas monetárias" de forma um tanto quanto frouxa, permitindo que a "base monetária" cresça aceleradamente. Os fatores para esta expansão da oferta de milhas e bônus são muitos.
Pelo lado das milhas, a oferta destas tem crescido com o próprio aumento do mercado de transporte aéreo, mas também com os inúmeros convênios que as companhias aéreas fazem entre seus programas de milhagem e outros serviços como aluguel de carros, redes de hotéis e mesmo cartões de crédito. Hoje em dia, nem mais é preciso ter voado uma única vez sequer para obter uma passagem aérea via acúmulo de milhas.
No caso dos bônus, a emissão deste meio de pagamento é atrelada ao dólar. Quanto maior for a conta do cartão de crédito convertida em dólares, mais se ganha bônus. A valorização do real no período recente, portanto, por si só já constitui um fator de expansão de oferta desta moeda. Mas ainda existem agravantes. No início da década, quando a taxa cambial era favorável aos emissores de bônus, os administradores destes programas começaram a flexibilizar suas políticas de emissão quebrando a paridade que até então existia para alguns clientes.
Ou seja, passaram a emitir mais de um bônus por dólar. Não é necessário dizer que estes beneficiados também eram os clientes com potencial de uso mais intensivo do cartão. Isto certamente agravou o efeito da valorização do real descrito acima. Ademais, o cartão de crédito também tem passado por uma escalada de sua base de clientes que certamente contribui para elevação da oferta de bônus.
Qualquer aluno de graduação em economia sabe que um aumento na oferta de moeda significa inflação caso não haja um correspondente aumento no produto total da economia. Não impondo limites à emissão, os administradores destes programas de milhas e bônus provocam tensões inflacionárias em seus mercados. Porém, eles também controlam a produção (bilhetes aéreos, produtos em catálogo) nestes mercados. Neste caso, as opções ao alcance destes programas são:
- Manter os preços expressos em milhas/bônus congelados, mas expandir a oferta de produtos. Uma opção custosa.
- Manter a oferta inalterada, mas aumentar os preços dos produtos. Uma opção impopular.
- Um meio termo entre as duas anteriores: expande-se a oferta via lançamento de novos produtos a preços que já estejam inflacionados.
Esta última opção tem sido a adotada pelos programas por justamente maquiar a inflação, ao mesmo tempo que se passa a impressão de a empresa ter feito um agrado a seus clientes ao aumentar as opções de escolha para conversão de milhas e bônus.
Isto tão é verdade que o próprio site InfoMoney, em matéria do dia (17/04), veiculou reportagem sobre promoções de companhias aéreas na qual dizia que a TAM havia expandido seu programa de milhagem oferecendo alguns trechos nacionais por 3.000 milhas ao passo que anteriormente o trecho mais barato para qualquer lugar da América do Sul custava 10.000.
Ótimo! Agora, pode-se obter uma passagem gastando 30% do que se gastava anteriormente. No entanto, uma checagem dos trechos que fazem parte da dita promoção permite constatar que se estas passagens fossem pagas em dinheiro, a relação de preços seria menor que 30%. Ou seja, estas passagens promocionais estão inflacionadas em milhas.
Nunca ninguém reparou que os preços relativos dos produtos nos catálogos de bônus são totalmente distorcidos se comparados com os preços relativos dos mesmos produtos expressos em dinheiro? Eis uma explicação.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Velhos problemas e as origens da crise
A teoria microeconômica nos ajuda a explicar alguns velhos problemas detectados nas origens da crise do setor financeiro que assola o planeta. Um deles é o clássico problema do agente-principal. Este é o problema de como uma pessoa A, o principal, pode incentivar uma outra B, o agente, para agir em benefício de A e não segundo seus próprios interesses. Na atual crise, os investidores de derivativos de crédito imobiliário e de títulos lastreados em hipotecas (CDOs e MBSs*) agem como o principal e contavam com a manutenção dos padrões de concessão de crédito de seus agentes, os financiadores imobiliários.
Desnecessário dizer que o risco de crédito aumentou drasticamente o que levou a uma crescente inadimplência tão logo os preços dos imóveis começaram a cair.
Nesta crise, investidores e bancos usaram recursos de curto prazo para investir em produtos complexos de longo prazo, como os CDOs e MBSs, na expectativa de rolarem seus compromissos de prazos menores com recursos provenientes de mercados de alta liquidez como o interbancário. O risco desta estratégia, na visão dos players, é pequeno, pois todos contam com a injeção de liquidez do banco central caso isto se torne necessário. E como pode-se constatar, é exatamente isto o que está acontecendo.
Este problema do risco moral está sempre presente no mercado financeiro, pois os custos de se deixar uma instituição financeira ir à falência podem ser muito grandes para fazerem com que o banco central assista a um contágio de forma passiva.
As peculiaridades do setor (lê-se sua grande importância para o funcionamento da economia) fazem com que as conseqüências negativas das práticas de livre mercado, ou seja, as falências, não sejam imputadas sobre as instituições na maioria dos casos. Se o risco moral leva a este tipo de atitude oportunista, há espaço para mais regulação.
Nesta crise, o risco moral incorrido pelos agentes provou ser um tiro no pé, pois no momento atual, mais do que liquidez, o que falta é confiança entre os agentes. E quanto a isto, os bancos centrais têm se mostrado impotentes em prover.
*CDO: collaterized debt obligation
MBS: mortgage-backed security.
