(Coluna da Infomoney publicada em 10 de Outubro de 2008)
A teoria microeconômica nos ajuda a explicar alguns velhos problemas detectados nas origens da crise do setor financeiro que assola o planeta. Um deles é o clássico problema do agente-principal. Este é o problema de como uma pessoa A, o principal, pode incentivar uma outra B, o agente, para agir em benefício de A e não segundo seus próprios interesses. Na atual crise, os investidores de derivativos de crédito imobiliário e de títulos lastreados em hipotecas (CDOs e MBSs*) agem como o principal e contavam com a manutenção dos padrões de concessão de crédito de seus agentes, os financiadores imobiliários.
No entanto, o modelo de financiar o imóvel e repassar o empréstimo para frente como se fosse uma batata quente gerava pouco incentivo para o financiador se preocupar com o risco de crédito dos tomadores. Pelo contrário, os financiadores cediam os empréstimos, vendiam logo em seguida para os bancos que por sua vez securitizavam os recebíveis.
O sistema de incentivo foi invertido no sentido dos agentes se preocuparem mais nas comissões de suas negociações do que no fluxo de caixa que essas operações gerariam ao longo do tempo. Assim priorizavam a quantidade de operações ao invés da qualidade dos tomadores.
Desnecessário dizer que o risco de crédito aumentou drasticamente o que levou a uma crescente inadimplência tão logo os preços dos imóveis começaram a cair.
Outro problema detectado é o do risco moral. Este é o risco de um contrato prometer ganhos em certas condições e com isso incentivar uma das partes do contrato a mudar sua atitude adotando condutas que levem estas situações específicas a terem uma probabilidade maior de ocorrência.
Nesta crise, investidores e bancos usaram recursos de curto prazo para investir em produtos complexos de longo prazo, como os CDOs e MBSs, na expectativa de rolarem seus compromissos de prazos menores com recursos provenientes de mercados de alta liquidez como o interbancário. O risco desta estratégia, na visão dos players, é pequeno, pois todos contam com a injeção de liquidez do banco central caso isto se torne necessário. E como pode-se constatar, é exatamente isto o que está acontecendo.
Este problema do risco moral está sempre presente no mercado financeiro, pois os custos de se deixar uma instituição financeira ir à falência podem ser muito grandes para fazerem com que o banco central assista a um contágio de forma passiva.
As peculiaridades do setor (lê-se sua grande importância para o funcionamento da economia) fazem com que as conseqüências negativas das práticas de livre mercado, ou seja, as falências, não sejam imputadas sobre as instituições na maioria dos casos. Se o risco moral leva a este tipo de atitude oportunista, há espaço para mais regulação.
Nesta crise, o risco moral incorrido pelos agentes provou ser um tiro no pé, pois no momento atual, mais do que liquidez, o que falta é confiança entre os agentes. E quanto a isto, os bancos centrais têm se mostrado impotentes em prover.
*CDO: collaterized debt obligation
MBS: mortgage-backed security.

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