Coluna publicada no portal Infomoney.com.br, em 27 de março de 2009
O escândalo dos bônus distribuídos aos dirigentes da seguradora norte-americana AIG adicionou lenha na fogueira da já polêmica discussão acerca da remuneração de executivos de grandes corporações.
Opinião pública e políticos norte-americanos condenaram a prática de se pagar bônus milionários para os funcionários de uma empresa à beira da falência que sobrevive graças aos aportes de US$ 180 bilhões do governo norte-americano. Por esta ótica simplista, isto de fato é nonsense. Porém colocando as emoções de lado e analisando mais friamente o episódio, é possível achar razões e explicações para a atitude da AIG.
Primeiramente é importante ressaltar que o governo norte-americano ter transferido bilhões para a AIG não significa uma aprovação por parte do governo da gestão financeira da empresa. A operação de salvamento da AIG foi feita por necessidade, para salvar o sistema financeiro como um todo. Ou seja, para evitar um dano maior ao país e ao globo do que os bilhões utilizados no socorro a empresa.
Mesmo assim, a atitude do governo dos EUA de condenar a distribuição de bônus da AIG é cabível? Eu creio que não. Caso o governo quisesse interferir na gestão da empresa, que o fizesse estatizando de fato a empresa e mudando sua gestão e políticas de bônus.
Ademais, esta postura do governo norte-americano só dificulta seus planos de salvar o sistema financeiro. Se a ajuda a instituições financeiras for seguida de interferências não acordadas previamente, criar-se-á incentivos para os bancos em necessidade começarem a rejeitar as ajudas do governo.
Voltando à questão central, o que explicaria a opção da AIG pela distribuição de US$ 160 milhões aos profissionais responsáveis pelo fracasso financeiro da seguradora?
Uma razão, a mais óbvia, é o cumprimento de contratos previamente acordados com estes profissionais. Mas até aí a empresa poderia optar por renegociá-los ou pagar o acordado e, em seguida, demitir estes funcionários.
Uma razão menos óbvia que levou a empresa a não fazer isso foi a de preservação da essência de sua política de remuneração variável. E esta explicação passa pelos incentivos (sempre eles) e sinalizações que uma política de bônus procura desenvolver quando uma empresa opta por esta maneira de remunerar seus funcionários.
Ao adotar uma política de bônus, a empresa visa criar incentivos para seus executivos tomarem riscos e buscarem a maximização de valor da empresa. Paralelamente, a empresa também busca com isso atrair os maiores talentos do mercado. Portanto, a ganância tão atacada pelos opositores deste sistema remuneratório nada mais é que um fruto dos incentivos criados por essa política. Sem dizer que sem esta ganância, o desenvolvimento do sistema capitalista e os ganhos de produtividade da economia teriam evoluído a passos de tartaruga nos últimos 20 anos.
Ao final de um período de prejuízo, no entanto, as empresas muito agressivas na remuneração variável de seus funcionários se veem em uma encruzilhada. Elas devem definir se cortam os bônus e com isso a confiança e motivação da equipe ou se bancam o bônus (ou parte significante dele), nem que isso aumente o prejuízo, pensando na manutenção dos incentivos e sinalizando, com isso, que a empresa confia e conta com a capacidade da equipe em reverter o cenário negativo.
Obviamente, o desfecho desta decisão passa pela análise dos fatores que levaram a empresa ao prejuízo. Analisa-se se foram situações e mudanças de conjuntura fora do controle dos executivos ou se foram situações diretamente relacionadas às decisões tomadas por estas pessoas ou mesmo um misto de ambos que frustraram os resultados da empresa.
No caso da AIG, sob este aspecto, a distribuição de bônus é justificável. Que os responsáveis pelo definhamento da empresa foram gananciosos e irresponsáveis não pairam dúvidas (e foram incentivados para serem). Que eles são incompetentes, eu já acho que não. Se o fossem já teriam sido demitidos. Portanto, dado que a empresa aparentemente acredita ser a mesma equipe que colocou a AIG nesta situação a mais apta para tirá-la do buraco, nada mais justo que manter os incentivos e a confiança destes profissionais ao honrar o que havia sido pactuado anteriormente. Doutra forma, qual seria a motivação destes funcionários para salvar a empresa?
E o que a empresa sinalizaria caso quebrasse este acordo prévio? Daqui a cinco anos, na hipótese de a seguradora se recuperar e se tornar uma potência no setor, você enviaria seu currículo para uma vaga na AIG que prometesse bônus extraordinários?
O blog
Este blog foi criado em 2008 para a postagem das minhas colunas que eram publicadas no Infomoney e no extinto A Cidade.
Atualmente publico no jornal O Pinhalense e no site O Financista.
Aproveitem!
sábado, 28 de março de 2009
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