Coluna publicada no jornal A Cidade, em 15 de maio de 2010
Assim como em 2006, o álbum da Copa de 2010 virou uma febre nacional. Isso não é diferente em Pinhal, como apontou o AC algumas semanas atrás. Estive recentemente em um domingo na cidade e fui trocar figurinhas na praça com meu afilhado -para o meu álbum e para o dele também. Minha primeira surpresa foi a quantidade de pessoas que estavam lá trocando as figuras, mas outra coisa que me chamou a atenção foi a existência de pessoas com quantidades enormes de figuras repetidas.
Estas pessoas com grandes quantidades de repetidas não souberam investir no álbum. O investimento máximo necessário para se completar o álbum é de exatos R$ 96. O que equivale a 128 pacotinhos de cinco cromos resultando nas 640 estampas que fazem parte do álbum. Com este investimento, garante-se que o número de repetidas obtidas equivalerá ao número de figuras faltantes no álbum. Ou seja, fazendo trocas na proporção um pra um, completa-se o álbum. O mercado se ajusta. Assim prevê a teoria econômica.
Para que esta situação ocorra, a teoria assume que os mercados são perfeitos e seus agentes, racionais. Credito o sobreinvestimento de um colecionador de figurinhas da Copa a falhas em ambas as premissas da teoria. Por mais que muitas pessoas e figurinhas vão à praça nas manhãs de domingo, creio que a quantidade de "mercadoria" e agentes não seja suficiente para um ajuste perfeito de mercado. E também creio que alguns destes agentes não sejam racionais no processo de aquisição de pacotinhos, querendo disputar algum tipo de status por obter um grande número de repetidas ou simplesmente ignorando a possibilidade de trocas. Mas também muitos outros agentes são levados a sobreinvestir em decorrência da primeira falha de mercado: como o mercado não se ajusta perfeitamente, é necessário comprar mais pacotes para elevar as possibilidades de troca.
Destas falhas de mercado do álbum da Copa derivam outras como o chamado poder de mercado: o sujeito com um monte muito grande de figurinhas pode concorrer de forma desigual com os demais ao oferecer, nas trocas, um número maior de cromos por uma mesma figura. E as pessoas que estão quase completando o álbum também tendem a "pagar mais caro" por suas estampas faltantes do que aquelas que estão começando o álbum.
Aproveitando-se destas falhas e voltando ao conceito de investimento necessário no álbum, é possível gastar menos deR$ 96 e completar mesmo assim o álbum. Bastaria adotar uma estratégia de cambiar figurinhas somente com aqueles que pagam caro por elas. Nem que seja para trocar uma repetida por figuras que a pessoa já possui, mas que fará suas possibilidades de troca aumentarem sem a necessidade de compra de mais pacotinhos. Neste caso, o sujeito estaria gerando valor no mercado de figurinhas da Copa.
O blog
Este blog foi criado em 2008 para a postagem das minhas colunas que eram publicadas no Infomoney e no extinto A Cidade.
Atualmente publico no jornal O Pinhalense e no site O Financista.
Aproveitem!
terça-feira, 18 de maio de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Um mercado para o silêncio
Coluna publicada no A Cidade, em 17 de abril de 2010
Parece haver um verdadeiro embate na cidade entre os silenciosos e os barulhentos. Já foram feitas manifestações públicas a favor e contra uma lei de tranquilidade pública. Ambos os lados em conflito dizem representar a maioria da população. Mas como saber de qual lado a maioria realmente está?
Em um ambiente desses, como os vereadores da cidade irão amparar suas decisões se desejarem refletir o anseio da população?
Fazer um projeto que simplesmente proíba carros de som e festas ao ar livre significa partir da premissa de que todos possuem direito ao silêncio. Tenho dificuldades para me convencer da validade desta premissa. Considero-a um tanto quanto autoritária para um regime democrático de direito.
A disputa entre silenciosos e barulhentos existe porque o silêncio -e o barulho também- é um estado da natureza que atinge a todos uniformemente e sem que ninguém tenha que pagar por ele: é grátis. Ou seja, é um típico bem público. O problema dos bens públicos é que como niguém precisa e nem deseja pagar por eles, não há incentivos também para alguém fornecê-los. E, neste caso, se justifica uma intervenção do estado para regulamentar esta oferta ou mesmo criar uma oferta de um bem público.
No caso da lei da tranquilidade pública de Pinhal, seria bem mais interessante se ela fosse capaz de regulamentar as atividades barulhentas, mas ao mesmo tempo criasse mecanismos de mercado para a solução do problema.
Um exemplo seria a lei limitar a oferta dos servicos de carros de som na cidade, mas também criar um mecanismo de leilão para a comercialização dos anúncios publicitários nestes veículos. O leilão seria disputado entre os anunciantes e aqueles que desejam o silêncio na cidade.
Se o anunciante fizer a melhor oferta de preço, o carro de som sai às ruas fazendo barulho. No caso dos defensores da tranqulidade urbana terem uma melhor oferta de preço aos donos dos carros de som, eles pagariam estes comerciantes para manterem seus carros na garagem.
Desta forma, tanto o barulho quanto o silêncio passariam a ser precificados e poderiam, com isso, ser comprados. O grupo que hoje é a favor da tranquilidade urbana se revelaria -mostrando seu verdadeiro contingente- e teria a oportunidade de adquirir aquilo que eles julgam ser de seu direito. O mesmo seria válido para os anunciantes que hoje já se manifestam desta forma: ou seja, eles já pagam pelo direito que eles têm de fazer barulho.
Se o silêncio for algo realmente valioso para um grupo de pessoas, ele não deve valer menos do que um anúncio de carro de som de Pinhal.
Um outro mecanismo de mercado similar a este para a solução do problema da tranquilidade urbana poderia ser a criação de um mercado de créditos de decibéis, a exemplo do que existe hoje com os créditos de carbono. Os agentes que tipicamente fazem barulho passariam a ser remunerados para cada decibel a menos emitido em relação ao que eles emitem atualmente. Mas quem pagaria por esses decibéis poupados? O mais justo, como no caso dos leilões, seria os mais afetados pelo barulho pagarem por isso.
Parece haver um verdadeiro embate na cidade entre os silenciosos e os barulhentos. Já foram feitas manifestações públicas a favor e contra uma lei de tranquilidade pública. Ambos os lados em conflito dizem representar a maioria da população. Mas como saber de qual lado a maioria realmente está?
Em um ambiente desses, como os vereadores da cidade irão amparar suas decisões se desejarem refletir o anseio da população?
Fazer um projeto que simplesmente proíba carros de som e festas ao ar livre significa partir da premissa de que todos possuem direito ao silêncio. Tenho dificuldades para me convencer da validade desta premissa. Considero-a um tanto quanto autoritária para um regime democrático de direito.
A disputa entre silenciosos e barulhentos existe porque o silêncio -e o barulho também- é um estado da natureza que atinge a todos uniformemente e sem que ninguém tenha que pagar por ele: é grátis. Ou seja, é um típico bem público. O problema dos bens públicos é que como niguém precisa e nem deseja pagar por eles, não há incentivos também para alguém fornecê-los. E, neste caso, se justifica uma intervenção do estado para regulamentar esta oferta ou mesmo criar uma oferta de um bem público.
No caso da lei da tranquilidade pública de Pinhal, seria bem mais interessante se ela fosse capaz de regulamentar as atividades barulhentas, mas ao mesmo tempo criasse mecanismos de mercado para a solução do problema.
Um exemplo seria a lei limitar a oferta dos servicos de carros de som na cidade, mas também criar um mecanismo de leilão para a comercialização dos anúncios publicitários nestes veículos. O leilão seria disputado entre os anunciantes e aqueles que desejam o silêncio na cidade.
Se o anunciante fizer a melhor oferta de preço, o carro de som sai às ruas fazendo barulho. No caso dos defensores da tranqulidade urbana terem uma melhor oferta de preço aos donos dos carros de som, eles pagariam estes comerciantes para manterem seus carros na garagem.
Desta forma, tanto o barulho quanto o silêncio passariam a ser precificados e poderiam, com isso, ser comprados. O grupo que hoje é a favor da tranquilidade urbana se revelaria -mostrando seu verdadeiro contingente- e teria a oportunidade de adquirir aquilo que eles julgam ser de seu direito. O mesmo seria válido para os anunciantes que hoje já se manifestam desta forma: ou seja, eles já pagam pelo direito que eles têm de fazer barulho.
Se o silêncio for algo realmente valioso para um grupo de pessoas, ele não deve valer menos do que um anúncio de carro de som de Pinhal.
Um outro mecanismo de mercado similar a este para a solução do problema da tranquilidade urbana poderia ser a criação de um mercado de créditos de decibéis, a exemplo do que existe hoje com os créditos de carbono. Os agentes que tipicamente fazem barulho passariam a ser remunerados para cada decibel a menos emitido em relação ao que eles emitem atualmente. Mas quem pagaria por esses decibéis poupados? O mais justo, como no caso dos leilões, seria os mais afetados pelo barulho pagarem por isso.
sábado, 3 de abril de 2010
Ciclos políticos e econômicos
Coluna publicada no jornal A Cidade, em 3 de abril de 2010
Algumas semanas atrás, recebi uma mensagem eletrônica pelo telefone de um político da região. Imagino que a mensagem deve ter batido altos papos com secretárias eletrônicas, sinais de fax e curiosos como eu. A mensagem era pra anunciar a publicação de um relatório das atividades do referido político. Basicamente o telefonema era pra fazer propaganda da propaganda política.
O episódio me fez lembrar como um ano eleitoral movimenta alguns setores econômicos do país. Isto acontece mais claramente e diretamente nos setores de gráficas, de serviços de propaganda e marketing e publicações de periódicos, como este jornal.
Os impactos econômicos de um evento de eleição não são corriqueiros, tanto que existem estudos sobre assunto e que correlacionam os ciclos econômicos com os ciclos políticos. De forma mais ampla, esta linha de estudos não só aborda estes efeitos mais diretos na economia, mas também consideram as políticas macroeconômicas e setoriais dos governos que tentam se reeleger ou elegerem seus sucessores.
O anúncio do PAC 2, que ocorreu na última segunda-feira, é só uma das facetas que evidenciam esta influência do calendário político sobre a economia. O aumento dos investimentos públicos, nestas épocas, tende a causar inclusive distorções nos mercados e desabastecimento de alguns produtos. Uma preocupação corrente do setor de construção é a garantia de fornecimento de asfalto. Neste ano talvez seja necessário importar asfalto no Brasil, pois a Petrobras, única fornecedora do produto, não terá condições de abastecer toda a demanda que se projeta para as obras de infraestrutura do país.
Por outro lado, a depender do cenário eleitoral, alguns setores da economia podem contrair seus investimentos previstos com receio de eventuais instabilidades políticas do futuro. Foi isso que ocorreu em 2002, quando um clima de terror se instalou nos mercados financeiros durante o período eleitoral.
Neste ano, é quase consenso que as diretrizes econômicas não serão alteradas qualquer que seja o vencedor das eleições, entre Dilma e Serra. E consensos por si só são motivos de preocupação.
Algumas semanas atrás, recebi uma mensagem eletrônica pelo telefone de um político da região. Imagino que a mensagem deve ter batido altos papos com secretárias eletrônicas, sinais de fax e curiosos como eu. A mensagem era pra anunciar a publicação de um relatório das atividades do referido político. Basicamente o telefonema era pra fazer propaganda da propaganda política.
O episódio me fez lembrar como um ano eleitoral movimenta alguns setores econômicos do país. Isto acontece mais claramente e diretamente nos setores de gráficas, de serviços de propaganda e marketing e publicações de periódicos, como este jornal.
Os impactos econômicos de um evento de eleição não são corriqueiros, tanto que existem estudos sobre assunto e que correlacionam os ciclos econômicos com os ciclos políticos. De forma mais ampla, esta linha de estudos não só aborda estes efeitos mais diretos na economia, mas também consideram as políticas macroeconômicas e setoriais dos governos que tentam se reeleger ou elegerem seus sucessores.
O anúncio do PAC 2, que ocorreu na última segunda-feira, é só uma das facetas que evidenciam esta influência do calendário político sobre a economia. O aumento dos investimentos públicos, nestas épocas, tende a causar inclusive distorções nos mercados e desabastecimento de alguns produtos. Uma preocupação corrente do setor de construção é a garantia de fornecimento de asfalto. Neste ano talvez seja necessário importar asfalto no Brasil, pois a Petrobras, única fornecedora do produto, não terá condições de abastecer toda a demanda que se projeta para as obras de infraestrutura do país.
Por outro lado, a depender do cenário eleitoral, alguns setores da economia podem contrair seus investimentos previstos com receio de eventuais instabilidades políticas do futuro. Foi isso que ocorreu em 2002, quando um clima de terror se instalou nos mercados financeiros durante o período eleitoral.
Neste ano, é quase consenso que as diretrizes econômicas não serão alteradas qualquer que seja o vencedor das eleições, entre Dilma e Serra. E consensos por si só são motivos de preocupação.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Risco-retorno do mercado de trabalho
Coluna publicada no jornal A Cidade de 20 de março de 2010
Nos investimentos financeiros vale a correlação positiva entre o risco e o retorno. Ou seja, quanto maior o risco do investimento, maior é o retorno esperado e vice-versa. Ações são investimentos mais arriscados e por isso tendem a ter maior retorno esperado, já a poupança é quase livre de risco e por isso rende relativamente menos. A lógica é simples: se algo tem um retorno financeiro muito incerto -maior risco- eu, como investidor, vou exigir e esperar receber um prêmio pelo risco de aplicar minhas economias neste ativo.
O que poucos sabem é que este conceito pode ser aplicado para muitas outras situações em nosso cotidiano, muito embora muitos já o apliquem mesmo que de forma inconsciente. Um exemplo mais típico é o caso do mercado de trabalho. Ao escolhermos onde mandar currículos ou ao escolher entre duas oportunidades que aparecem ou termos que decidir sobre mudar de emprego ou não, a análise de risco-retorno sempre pode ser aplicada.
Quando a dúvida é abrir uma empresa pequena ou trabalhar em uma empresa grande, pode-se ponderar: na empresa grande é mais garantido eu manter minha empregabilidade, mas posso levar mais tempo para evoluir na carreira e terei mais concorrentes para isso, logo é um emprego mais estável. Porém, possui retorno menor em relação ao de uma empresa pequena onde coloco minha carreira em risco por conta dos riscos inerentes à operação de um negócio pequeno, mas, por outro lado, se a companhia obtiver sucesso no mercado, ela crescerá de forma rápida assim como minha carreira - e carteira.
Outros casos são os dos empregos oferecidos no exterior, em países subdesenvolvidos ou em regiões menos desenvolvidas do Brasil. Não é à toa que as vagas que surgem para estes lugares sempre pagam mais que uma equivalente nos grandes centros. Para uma pessoa sair do conforto do grande centro, onde existem outras oportunidades, e viajar para um lugar desconhecido, com risco não só de natureza profissional, mas também riscos sociais como a violência e presença de doenças endêmicas, esta pessoa certamente exigirá um salário mais alto.
Para os que prestam concursos públicos, isto também é verdade. Investir em concurso público é investir na poupança do mercado de trabalho. O sujeito que quer virar funcionário público não possui muita ambição profissional, pois os cargos públicos, ao contrário dos privados, possuem um teto salarial. Ou seja, tem-se a garantia de estabilidade no emprego - menos risco-, porém com um limite de retorno. No mercado profissional das empresas privadas, este teto salarial não existe, tampouco a estabilidade de emprego existe.
Nos investimentos financeiros vale a correlação positiva entre o risco e o retorno. Ou seja, quanto maior o risco do investimento, maior é o retorno esperado e vice-versa. Ações são investimentos mais arriscados e por isso tendem a ter maior retorno esperado, já a poupança é quase livre de risco e por isso rende relativamente menos. A lógica é simples: se algo tem um retorno financeiro muito incerto -maior risco- eu, como investidor, vou exigir e esperar receber um prêmio pelo risco de aplicar minhas economias neste ativo.
O que poucos sabem é que este conceito pode ser aplicado para muitas outras situações em nosso cotidiano, muito embora muitos já o apliquem mesmo que de forma inconsciente. Um exemplo mais típico é o caso do mercado de trabalho. Ao escolhermos onde mandar currículos ou ao escolher entre duas oportunidades que aparecem ou termos que decidir sobre mudar de emprego ou não, a análise de risco-retorno sempre pode ser aplicada.
Quando a dúvida é abrir uma empresa pequena ou trabalhar em uma empresa grande, pode-se ponderar: na empresa grande é mais garantido eu manter minha empregabilidade, mas posso levar mais tempo para evoluir na carreira e terei mais concorrentes para isso, logo é um emprego mais estável. Porém, possui retorno menor em relação ao de uma empresa pequena onde coloco minha carreira em risco por conta dos riscos inerentes à operação de um negócio pequeno, mas, por outro lado, se a companhia obtiver sucesso no mercado, ela crescerá de forma rápida assim como minha carreira - e carteira.
Outros casos são os dos empregos oferecidos no exterior, em países subdesenvolvidos ou em regiões menos desenvolvidas do Brasil. Não é à toa que as vagas que surgem para estes lugares sempre pagam mais que uma equivalente nos grandes centros. Para uma pessoa sair do conforto do grande centro, onde existem outras oportunidades, e viajar para um lugar desconhecido, com risco não só de natureza profissional, mas também riscos sociais como a violência e presença de doenças endêmicas, esta pessoa certamente exigirá um salário mais alto.
Para os que prestam concursos públicos, isto também é verdade. Investir em concurso público é investir na poupança do mercado de trabalho. O sujeito que quer virar funcionário público não possui muita ambição profissional, pois os cargos públicos, ao contrário dos privados, possuem um teto salarial. Ou seja, tem-se a garantia de estabilidade no emprego - menos risco-, porém com um limite de retorno. No mercado profissional das empresas privadas, este teto salarial não existe, tampouco a estabilidade de emprego existe.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Ações de longo prazo ou apostas
Coluna publicada no jornal A Cidade de 6 de março de 2010
Na coluna desta semana volto a falar do mercado de ações. Já é amplamente divulgado que investimentos em ações são recomendados para aqueles que vislumbram retornos de longo prazo. No entanto, por mais óbvio que pareça, os investidores devem atentar para o momento do ciclo em que eles entram no mercado acionário. Ou seja, de nada adianta comprar ações em níveis de preços historicamente altos, se eles podem cair e nunca mais recuperar tais patamares. Nem mesmo o mais longevo investidor recupera seu investimento neste caso. Na história das bolsas de valores mais antigas do mundo, a de Nova Iorque e a de Londres, os picos de preços das ações tiveram intervalos de cerca de 30 anos entre um e outro -o último pico registrado foi em 1999 em ambas as bolsas. Uma explicação para ciclos tão longos pode ser o desânimo generalizado e persistente que toma conta dos investidores após uma derrocada dos preços acionários. Um estudo recente relacionou estes ciclos com a demografia. Os períodos nos quais a faixa etária dos 30 a 50 anos é mais populosa caracterizam-se por mercados em alta, pois esta é a faixa etária na qual as pessoas estão mais propensas a poupar. Quando esta geração começa a se aposentar, ela resgata suas economias -vende suas ações- e pressiona o mercado para o campo negativo.
É interessante também notar que, mesmo sendo um investimento de longo prazo, são poucos os dias que fazem a diferença na rentabilidade das aplicações em ações. Conforme notou um professor meu de mestrado, se retirarmos os cinco dias de maiores altas da bolsa de São Paulo e compararmos uma aplicação na bolsa com uma em um fundo que rende CDI, durante o período de 1999 e 2007, o investimento do CDI rende mais. Ou seja, a bolsa só "bate" o CDI neste período em virtude destes cinco dias!
Esta é uma evidência adicional de que também não vale a pena buscar ganhos de curto prazo na bolsa, tentando comprar na baixa e vender na alta nos pequenos ciclos que ocorrem. Isto é válido somente se houver tempo para uma dedicação integral no acompanhamento dos movimentos das ações. Sem esta dedicação, os investimentos de curto prazo viram loteria. E, se for para ser desta maneira, é preferível buscar rentabilidade em coisas mais lúdicas e divertidas, como as apostas esportivas. Esta semana, um colega meu conseguiu um retorno de 300%, durante o jogo do Brasil, ao apostar em eventos tão triviais como afirmar que o primeiro lance de bola parada no segundo tempo do jogo seria um lateral.
Na coluna desta semana volto a falar do mercado de ações. Já é amplamente divulgado que investimentos em ações são recomendados para aqueles que vislumbram retornos de longo prazo. No entanto, por mais óbvio que pareça, os investidores devem atentar para o momento do ciclo em que eles entram no mercado acionário. Ou seja, de nada adianta comprar ações em níveis de preços historicamente altos, se eles podem cair e nunca mais recuperar tais patamares. Nem mesmo o mais longevo investidor recupera seu investimento neste caso. Na história das bolsas de valores mais antigas do mundo, a de Nova Iorque e a de Londres, os picos de preços das ações tiveram intervalos de cerca de 30 anos entre um e outro -o último pico registrado foi em 1999 em ambas as bolsas. Uma explicação para ciclos tão longos pode ser o desânimo generalizado e persistente que toma conta dos investidores após uma derrocada dos preços acionários. Um estudo recente relacionou estes ciclos com a demografia. Os períodos nos quais a faixa etária dos 30 a 50 anos é mais populosa caracterizam-se por mercados em alta, pois esta é a faixa etária na qual as pessoas estão mais propensas a poupar. Quando esta geração começa a se aposentar, ela resgata suas economias -vende suas ações- e pressiona o mercado para o campo negativo.
É interessante também notar que, mesmo sendo um investimento de longo prazo, são poucos os dias que fazem a diferença na rentabilidade das aplicações em ações. Conforme notou um professor meu de mestrado, se retirarmos os cinco dias de maiores altas da bolsa de São Paulo e compararmos uma aplicação na bolsa com uma em um fundo que rende CDI, durante o período de 1999 e 2007, o investimento do CDI rende mais. Ou seja, a bolsa só "bate" o CDI neste período em virtude destes cinco dias!
Esta é uma evidência adicional de que também não vale a pena buscar ganhos de curto prazo na bolsa, tentando comprar na baixa e vender na alta nos pequenos ciclos que ocorrem. Isto é válido somente se houver tempo para uma dedicação integral no acompanhamento dos movimentos das ações. Sem esta dedicação, os investimentos de curto prazo viram loteria. E, se for para ser desta maneira, é preferível buscar rentabilidade em coisas mais lúdicas e divertidas, como as apostas esportivas. Esta semana, um colega meu conseguiu um retorno de 300%, durante o jogo do Brasil, ao apostar em eventos tão triviais como afirmar que o primeiro lance de bola parada no segundo tempo do jogo seria um lateral.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Quanto vale um diamante?
Publicado no A Cidade no dia 20 de fevereiro de 2010 e no portal Infomoney
Escrevo a coluna desta semana da Chapada Diamantina, Bahia, onde passei o carnaval. O nome da chapada vem da exploração de diamantes na região, que data do século 18 e continuou até o final do século 20. Ainda, hoje, alguns garimpeiros exploram a região mesmo que seja de forma ilegal.
Em um dos passeios pela região, um destes garimpeiros me ofereceu diamantes para comprar. Nem perguntei o preço das pedras, mas isso nos fez questionar qual o valor de um diamante. Embora seja comumente confundido, o conceito de preço é diferente do de valor. Preço é igual para todo mundo. É aquele que está marcado na etiqueta. Já o valor é individual, cada um tem uma opinião a seu respeito. Ou seja, o valor advém da percepção de cada um a respeito de quanto vale ou de quanto lhe é útil determinado bem. Para que as mercadorias sejam comercializadas, a regra básica é que o valor do bem para o consumidor seja maior ou igual ao seu preço.
Voltando à questão inicial de quanto vale um diamante, podemos dizer que o valor do diamante, por este ser um bem supérfluo, deve variar bastante de pessoa para pessoa. Mesmo sendo uma pedra rara e preciosa, um diamante provavelmente vale muito pouco para uma pessoa sozinha no deserto, por exemplo. Certamente uma água de coco deve valer mais que um diamante para esta pessoa.
Não só de pessoa para pessoa, o valor das coisas também varia através dos tempos e de lugar para lugar. O processo de precificação dos bens, portanto, não leva somente em conta o custo de produção, mas também tenta captar como um consumidor típico valoriza estes bens. Isto explica o porquê dos itens da moda serem mais caros que os tradicionais ou uma capa de chuva custar mais caro nos dias que chove.
O alto preço cobrado pelos diamantes, portanto, indica que a maioria das pessoas os valoriza bastante. Uma das explicações para isto reside em sua raridade e beleza. Eu particularmente não me convenço somente com esta explicação. Credito muito da valorização dada ao diamante ao fator cultural e psicológico criado por campanhas de marketing, no passado, dos grandes produtores de diamante. E pra você? Quanto vale um diamante?
Escrevo a coluna desta semana da Chapada Diamantina, Bahia, onde passei o carnaval. O nome da chapada vem da exploração de diamantes na região, que data do século 18 e continuou até o final do século 20. Ainda, hoje, alguns garimpeiros exploram a região mesmo que seja de forma ilegal.
Em um dos passeios pela região, um destes garimpeiros me ofereceu diamantes para comprar. Nem perguntei o preço das pedras, mas isso nos fez questionar qual o valor de um diamante. Embora seja comumente confundido, o conceito de preço é diferente do de valor. Preço é igual para todo mundo. É aquele que está marcado na etiqueta. Já o valor é individual, cada um tem uma opinião a seu respeito. Ou seja, o valor advém da percepção de cada um a respeito de quanto vale ou de quanto lhe é útil determinado bem. Para que as mercadorias sejam comercializadas, a regra básica é que o valor do bem para o consumidor seja maior ou igual ao seu preço.
Voltando à questão inicial de quanto vale um diamante, podemos dizer que o valor do diamante, por este ser um bem supérfluo, deve variar bastante de pessoa para pessoa. Mesmo sendo uma pedra rara e preciosa, um diamante provavelmente vale muito pouco para uma pessoa sozinha no deserto, por exemplo. Certamente uma água de coco deve valer mais que um diamante para esta pessoa.
Não só de pessoa para pessoa, o valor das coisas também varia através dos tempos e de lugar para lugar. O processo de precificação dos bens, portanto, não leva somente em conta o custo de produção, mas também tenta captar como um consumidor típico valoriza estes bens. Isto explica o porquê dos itens da moda serem mais caros que os tradicionais ou uma capa de chuva custar mais caro nos dias que chove.
O alto preço cobrado pelos diamantes, portanto, indica que a maioria das pessoas os valoriza bastante. Uma das explicações para isto reside em sua raridade e beleza. Eu particularmente não me convenço somente com esta explicação. Credito muito da valorização dada ao diamante ao fator cultural e psicológico criado por campanhas de marketing, no passado, dos grandes produtores de diamante. E pra você? Quanto vale um diamante?
Economia do Show de Heavy Metal
Publicado no A Cidade no dia 6 de Fevereiro de 2010
Sábado passado fui ao show do Metallica, em São Paulo. Os ingressos já estavam esgotados há semanas e na entrada do estádio dava para ver que alguns ali estavam acampados há alguns dias para garantir os melhores lugares na pista.
Na época em que foram colocados à venda, já era certo que os ingressos se esgotariam mesmo se custassem mais caro. Mas por que, então, os produtores do show não aumentaram o preço dos ingressos?
Uma explicação para essa aparente irracionalidade dos produtores reside na intenção deles de selecionar o perfil da audiência do show. Da mesma forma que algumas casas noturnas estabelecem preços astronômicos para selecionar apenas pessoas de classes sociais mais elevadas, os produtores de shows de rock querem atrair um perfil mais jovem para os shows e, por isso, não podem cobrar preços muito salgados.
O interesse dos organizadores pela audiência mais jovem está no perfil de consumo deste grupo. Os jovens, ao contrário dos adultos, possuem uma propensão maior ao consumo de camisetas, CDs e DVDs das bandas de rock. O ingresso do show, na visão dos produtores, é apenas parte do pacote que está sendo comercializado e, portanto, o preço dele não pode inviabilizar o consumo dos demais itens da cesta.
Ademais, os jovens têm disponibilidade para acamparem na porta dos estádios às vésperas dos shows conferindo publicidade e mídia à banda e a seus produtos. Adultos já não possuem tanta disposição.
Nós, economistas, gostamos de achar explicações racionais para eventos ou atitudes que, às vezes, realmente são irracionais.
Sabesp
Recebi uma carta do vereador José Gilberto Viola com material sobre o contrato e negociação da Sabesp com Pinhal. Agradeço o envio. Embora tenha restrições à proposta de municipalizar as operações de saneamento da cidade, concordo plenamente com ele quanto à necessidade de um processo licitatório para a seleção do operador. R$ 6 milhões é muito ou pouco? Eu não sei. Alguém tem condições de dizer? Eu não vi nenhum cálculo usado para balizar e justificar este valor. Alguém viu?
Sábado passado fui ao show do Metallica, em São Paulo. Os ingressos já estavam esgotados há semanas e na entrada do estádio dava para ver que alguns ali estavam acampados há alguns dias para garantir os melhores lugares na pista.
Na época em que foram colocados à venda, já era certo que os ingressos se esgotariam mesmo se custassem mais caro. Mas por que, então, os produtores do show não aumentaram o preço dos ingressos?
Uma explicação para essa aparente irracionalidade dos produtores reside na intenção deles de selecionar o perfil da audiência do show. Da mesma forma que algumas casas noturnas estabelecem preços astronômicos para selecionar apenas pessoas de classes sociais mais elevadas, os produtores de shows de rock querem atrair um perfil mais jovem para os shows e, por isso, não podem cobrar preços muito salgados.
O interesse dos organizadores pela audiência mais jovem está no perfil de consumo deste grupo. Os jovens, ao contrário dos adultos, possuem uma propensão maior ao consumo de camisetas, CDs e DVDs das bandas de rock. O ingresso do show, na visão dos produtores, é apenas parte do pacote que está sendo comercializado e, portanto, o preço dele não pode inviabilizar o consumo dos demais itens da cesta.
Ademais, os jovens têm disponibilidade para acamparem na porta dos estádios às vésperas dos shows conferindo publicidade e mídia à banda e a seus produtos. Adultos já não possuem tanta disposição.
Nós, economistas, gostamos de achar explicações racionais para eventos ou atitudes que, às vezes, realmente são irracionais.
Sabesp
Recebi uma carta do vereador José Gilberto Viola com material sobre o contrato e negociação da Sabesp com Pinhal. Agradeço o envio. Embora tenha restrições à proposta de municipalizar as operações de saneamento da cidade, concordo plenamente com ele quanto à necessidade de um processo licitatório para a seleção do operador. R$ 6 milhões é muito ou pouco? Eu não sei. Alguém tem condições de dizer? Eu não vi nenhum cálculo usado para balizar e justificar este valor. Alguém viu?
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