O blog

Este blog foi criado em 2008 para a postagem das minhas colunas que eram publicadas no Infomoney e no extinto A Cidade.
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sábado, 6 de dezembro de 2008

O efeito manada dos analistas

Coluna publicada no Infomoney em 29 de fevereiro de 2008

O efeito manada se caracteriza pela ação individual de diversos agentes pondo em prática uma mesma decisão de forma quase simultânea uns aos outros. Assemelham-se, dessa forma, aos animais de pastoreio. Daí seu nome em inglês, herding ou andar em manada, em português.

No mercado financeiro, o efeito manada está associado a grandes bolhas especulativas, seus respectivos estouros e ocasionais solavancos.

São basicamente duas as motivações de uma manada. Pode ser uma nova informação que vem a público, fazendo os agentes reagirem de forma semelhante ao se ajustarem à nova situação, afinal a notícia deve ter efeito semelhante para quase todo mundo. A outra motivação estaria associada a um comportamento mais irracional dos agentes de simplesmente copiarem uns aos outros a revelia dos fundamentos.

Este mimetismo viria da percepção de um agente individual de que seu companheiro é mais habilidoso e/ou tem melhores informações do que ele próprio. Portanto, segui-lo em suas ações seria a estratégia ótima. Outra explicação que vem das finanças comportamentais seria o desejo individual de não deixar de fazer parte da festa quando o mercado está subindo ou de não ficar pagando o pato numa situação oposta, por mais que os fundamentos e sua convicção digam o contrário.

Pois bem, muito se fala do efeito manada para os investidores e suas decisões. Mas existiria um efeito manada entre os demais players do mercado de capitais também? Os analistas também agem em manada?

Alguns estudos, a partir da década de noventa, começaram a analisar essa hipótese. A ação em manada de um analista se caracteriza pelas revisões de preço-alvo ou resultados das empresas se direcionarem/convergirem para o consenso dos demais analistas a despeito do que a percepção deste analista de seu conjunto de informações lhe indique. Os motivos para um analista qualquer agir em manada estão associados a preocupações com o desenvolvimento de sua carreira e com a percepção das próprias habilidades.

Dessa forma é de se esperar que um sujeito mais experiente, já estabelecido no mercado e conservador no que tange a sua carreira tenha mais incentivos para acompanhar o consenso. O analista inseguro também o acompanha, pois tem a percepção de que um sujeito com aquelas características seja mais habilidoso do que ele. Já um jovem analista em início de carreira teria incentivos tanto para seguir o consenso, por segurança, ou se desviar dele (mesmo que de forma arbitrária) como meio de sinalizar que ele seja habilidoso.

Num recente estudo sobre o assunto, os pesquisadores Jegadeesh e Kim testam essas diversas hipóteses para o mercado norte-americano. Ao testarem a reação dos preços dos ativos às revisões feitas pelos analistas, o modelo desenvolvido pelos pesquisadores seleciona as revisões caracterizadas por um efeito manada e com estas tentam traçar um perfil e motivação dos analistas que seguem sistematicamente o consenso.

Entre as conclusões da pesquisa estão que as próprias revisões de preço-alvo são parcialmente motivadas pelo desejo do analista de convergir para o consenso. Os efeitos de manada são mais comuns nas revisões para baixo do que nas revisões para cima (analistas ficam mais desconfortáveis em estarem contra a corrente quando a notícia é negativa). E os analistas das corretoras mais tradicionais tendem ao consenso mais do que os analistas de pequenas corretoras ou aqueles iniciantes.

Além deste efeito manada, é notório que os analistas são relutantes para emitirem recomendações de venda (quantas você tem visto ultimamente no Brasil?). Só isso bastaria para se questionar o papel deles no mercado. Porém, mesmo assim, estudos apontam para reações anormais do preço dos ativos logo após revisões nas recomendações dos analistas, mesmo quando se controla para revisões feitas logo após anúncios públicos de novas informações. Portanto, cabe a provocação, quem mais sofre do auto-engano aqui?

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